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Timor-Leste: Primeiro grupo de refugiados deixa Macau rumo a Lisboa

Arquivo Lusa 1999

Macau, 10 Nov (Lusa) - Três dezenas de timorenses refugiados em Macau partiram hoje com destino a Portugal, sendo a primeira leva de um êxodo que aumentará à medida que se aproxima a data de  transferência de administração do território para a China.

"Dos cerca de 160 timorenses refugiados em Macau, parte hoje este grupo de trinta, e dentro de duas semanas partem mais 40", disse à agência Lusa o padre Francisco Fernandes, membro da Comissão  Política do Conselho Nacional da Resistência Timorense (CNRT).

Francisco Fernandes adiantou que, em Portugal, o grupo de refugiados receberá apoio da Segurança Social, uma vez que a "maioria dos timorenses pretende prosseguir estudos superiores para melhor  poder servir Timor-Leste no futuro".

Além das sete dezenas que abandonam Macau em direcção a Portugal, os restantes 80 voltarão a Timor-Leste no fim do mês de Novembro, princípios de Dezembro, adiantou o representante do CNRT.

"Possivelmente, os 80 timorenses voltarão para Timor-Leste por mar, pois assim poderão levar consigo bens de primeira necessidade, que lá não existem, como comida e roupas", disse Francisco Fernandes.

Outra hipótese adiantada pelo responsável timorense é a realização de um voo entre Macau e Timor-Leste, que, além dos timorenses, transportará medicamentos e outros produtos básicos.

Por hoje, de lágrimas nos olhos, 't-shirts' com a esfera armilar e bonés das FALINTIL, os timorenses que ficaram despediram-se no terminal marítimo do Porto Exterior daqueles que partem para mais uma  etapa de uma vida de diáspora.

"Escolhi partir para Portugal e continuar os meus estudos. Ouvi dizer que o Estado português concede bolsas de estudo a timorenses, e eu tenho esperanças de receber alguma", diz Lindalva Ximenes Silva, 18 anos, uma das que por enquanto permanece em Macau, mas que pretende continuar a vida em Portugal antes de voltar para Timor-Leste.

Francisco Fernandes considera que a vida dos refugiados timorenses em Macau, é um paraíso para quem chega trazendo só na bagagem traumas da guerra e a esperança de uma vida melhor de volta a Timor-Leste.

Os serviços sociais destinaram o Centro de Refugiados da Ilha Verde para o acolhimento de refugiados de Timor, a quem é atribuído um subsídio mensal de mil patacas.

Enquanto esperam pela partida para Portugal, os refugiados, para quem Macau faz parte da rota da fuga de Timor desde 1975, tentam não desperdiçar o tempo e matriculam-se em estudos básicos de  português, computadores, cozinha e cursos de arte. Os cursos, gratuitos, são leccionados pelo Instituto Português do Oriente (IPOR).

Para Esménia Lisboa, 18 anos, os cursos do IPOR são mesmo "o melhor da passagem por Macau". A jovem espera agora melhorar em Portugal o nível básico de português conquistado em Macau.

Nos corredores do Centro de Refugiados da Ilha Verde pode ouvir-se também o resultado dos tempos de espera em Macau - os acordes do grupo musical Fitun Lorosae (Estrela do Leste), criado no território.

"Cantamos essencialmente música em tétum, a língua maioritária em Timor-Leste, com letras que falam de paz, amor e liberdade", diz Ester Barreto, membro do grupo, adiantando que o Fitun Lorosae é também uma forma de "resistir e preservar a cultura de Timor-Leste".

"As canções do Fitun Lorosae falam por si, sobre o que é a essência de Timor-Leste. É mais fácil um estrangeiro conhecer a minha terra através das músicas do que se for eu a gabar-me dela", justifica Ester.

Lusa/Fim