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REPORTAGEM: Manifestantes apostam na erosão económica para pressionar Governo de Hong Kong

*** João Carreira, enviado da agência Lusa ***



Hong Kong, China, 13 ago 2019 (Lusa) -- Os manifestantes que voltaram a paralisar o aeroporto de Hong Kong disseram hoje à agência Lusa que a erosão económica, sobretudo no setor do turismo, é uma das apostas para pressionar o Governo a aceitar as suas reivindicações.


"Não nos estão a dar alternativas. Este é um caminho, mas a culpa é do Governo. Tivemos milhões nas ruas, mas agora é que parece que estão a reagir" por causa do impacto e da visibilidade do protesto naquele que é um dos mais movimentados aeroportos do mundo, disseram à agência Lusa vários manifestantes que pediram para não serem identificados, com medo de retaliações por parte das autoridades.


Ao quarto dia de protesto no aeroporto, com centenas de voos cancelados pelo segundo dia consecutivo, o Governo de Hong Kong anunciou hoje um inquérito formal para investigar as circunstâncias nas quais uma mulher foi atingida gravemente num olho em frente à esquadra de Tsim Sha Tsui no domingo, e que se tornou num símbolo da brutalidade policial.


Confrontada com perdas no setor do turismo, que também já estão a afetar a região administrativa especial de Macau, a chefe do Governo de Hong Kong advertiu hoje que a violência das manifestações pró-democracia está a empurrar o território "para um abismo e mergulhar a sociedade (...) numa situação preocupante e perigosa".


As palavras de Carrie Lam e as declarações do porta-voz chinês do Gabinete de Assuntos de Hong Kong e Macau, Yang Gang, que denuncia "os primeiros sinais de terrorismo" cometidos por "radicais" são encarados com alguma indiferença pelos jovens manifestantes.


No aeroporto, passeiam-se sentados em carrinhos que deveriam transportar bagagens, empunham cartazes nos quais se denuncia a brutalidade policial, exibem palas que cobrem um dos olhos, tingidas de vermelho, e garantem que vão marcar presença em mais uma grande marcha promovida pela Frente Cívica de Direitos Humanos, agendada para domingo à tarde.


Os protestos em Hong Kong duram há mais de dois meses, têm sido marcados por violentos confrontos entre manifestantes e a polícia, com recentes dados a apontarem para um impacto económico na indústria de viagens na ex-colónia britânica.


Na quinta-feira, o Governo de Hong Kong informou que a chegada de turistas caiu 26% no final do mês passado em relação ao mesmo período de 2018 e que continua a cair em agosto, sendo que o setor de viagens representa 4,5% da economia da cidade.


O impacto pode ser tão mau ou pior do que em 2003, aquando do surto da Síndrome Respiratória Aguda Severa (SARS), afirmou o presidente do Conselho da Indústria de Viagens, Jason Wong Chun-tat.


Wong disse que os cancelamentos podem reduzir em 40% as receitas de hotéis em agosto, comparativamente ao mesmo período do ano passado.


Hong Kong vive um clima de contestação social após a apresentação de uma proposta de alteração à lei da extradição, que permitiria ao Governo e aos tribunais a extradição de suspeitos de crimes para jurisdições sem acordos prévios, como é o caso da China continental.


A proposta foi, entretanto, suspensa, mas as manifestações generalizaram-se e denunciam agora uma "erosão das liberdades" na antiga colónia britânica.


No domingo, aquele que é o único candidato a chefe do Governo de Macau disse hoje que os protestos em Hong Kong estão a afetar o turismo no território e admitiu que a manter-se a tendência a cidade pode "enfrentar um grande problema".


Há algumas influências. (...) O número de turistas está a reduzir", afirmou Ho Iat Seng, numa conferência de imprensa que serviu para apresentar o programa político.


"Se a situação de Hong Kong continuar assim, no segundo semestre se calhar vamos enfrentar um grande problema", admitiu.


Ambos os territórios vizinhos são ligados por 'ferries' e autocarros, com Macau a beneficiar ainda da entrada de turistas que aterram no aeroporto internacional de Hong Kong.


De resto, a ligação marítima entre Macau, capital mundial do jogo, e o aeroporto internacional de Hong Kong, efetuada habitualmente ao início da noite, foi hoje cancelada pelo segundo dia consecutivo.



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Lusa/Fim