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Propaganda de Pequim alastra-se além-fronteiras face à crise na imprensa livre

epa06622482 A man reads newspaper next to an electronic board showing the stock index and prices at a securities brokerage in Beijing, China, 23 March 2018. China's market dropped following the new USA policy imposing tariffs on Chinese goods. US President Donald J. Trump on 22 March signed a presidential memorandum targeting what the White House termed 'China's economic aggression'. China is threatening retaliation for the tariffs on $50 billion US dollar (40 billion euro) of Chinese imports, sparking further fears of a trade war.  EPA/ROMAN PILIPEY

 

Durante meio ano, o jornalista brasileiro Thiago Copetti viveu num condomínio de luxo, em Pequim, e viajou pela China, cortesia do Partido Comunista (PCC), que está a investir milhões para alterar narrativas sobre o país.

"Eles precisam que alguém fale por eles, e somos nós, que estamos aqui, a fazê-lo", explica à agência Lusa o repórter do Jornal do Comércio, com sede no Estado brasileiro do Rio Grande do Sul.

Outros sessenta jornalistas, oriundos da América Latina, Ásia e África, participaram, em 2018, no mesmo programa, organizado pela agência noticiosa chinesa Xinhua, cujo presidente, Cai Mingzhao, é membro do Comité Central do PCC.

Também os jornais oficiais Diário do Povo e China Daily ou a Rádio Internacional da China (CRI, na sigla em inglês), têm promovido visitas do género, que, nos últimos anos, trouxeram ao país asiático milhares de jornalistas estrangeiros.

Trata-se de parte de uma estratégia mais ampla, cujo presidente da CRI, Wang Gengnian, compara a "sair para o oceano com um barco emprestado".

Pequim, que há muito se queixa que a imprensa ocidental domina o discurso global e alimenta preconceitos contra a China, tem investido milhares de milhões de dólares para convencer o mundo de que o país é um sucesso político e cultural.

A Xinhua ou a televisão estatal CGTN contam já com centenas de delegações além-fronteiras e têm agressivamente procurado parcerias no exterior, visando publicar conteúdo aprovado pela Propaganda do PCC, sob o selo de órgãos de comunicação independentes.

"A China está a tentar transformar o ambiente da informação global com injeções maciças de dinheiro: financiar publicações, coberturas jornalísticas e mensagens positivas", descreve Louisa Lim, pesquisadora e professora na Universidade de Melbourne, à Lusa.

Esta investida foi oficialmente lançada em 2009, após protestos pró-independência do Tibete e em defesa dos Direitos Humanos terem acompanhado a passagem da Tocha Olímpica, em várias cidades do mundo, nas vésperas dos Jogos Olímpicos em Pequim.

Numa era em que a internet destruiu o modelo de negócio da imprensa tradicional, o regime chinês anunciou um investimento equivalente a 5,8 mil milhões de euros, visando reforçar a presença global dos seus órgãos de comunicação.

"Os grupos de comunicação estrangeiros dão as boas-vindas ao dinheiro chinês", nota Lim, acrescentando que, "enquanto na China a imprensa é cada vez mais controlada, Pequim procura explorar as vulnerabilidades da imprensa livre além-fronteiras".

Desde 2017, o China Daily gastou quase 16 milhões de dólares para publicar suplementos em jornais norte-americanos, segundo dados reportados ao abrigo da Lei de Registo de Agentes Estrangeiros, que exige que entidades que representam os interesses de outros países divulguem as suas finanças.

New York Times ou Wall Street Journal são alguns dos órgãos que publicam suplementos do China Daily, mas cujas versões eletrónicas estão bloqueadas no país asiático.

Em Portugal, a CRI assegura uma emissão diária através da Rádio Iris FM, sediada nos arredores de Lisboa.

Já em África, a mensagem chinesa chega também via filmes ou telenovelas, difundidos pela StarTimes, empresa de telecomunicações chinesa que apoiou dezenas de países africanos na transição de televisão analógica para digital, garantido o acesso das casas do continente a conteúdo audiovisual chinês.

Em Moçambique, o grupo estabeleceu a StarTimes Media, uma 'joint-venture' com a Focus 21, empresa controlada pela família do ex-Presidente moçambicano Armando Guebuza.

Lily Meng, vice-diretora-geral do departamento de média do grupo, que faz a dobragem de conteúdos audiovisuais para português, inglês, francês, ou línguas regionais como suaíli ou iorubá, explica à Lusa que os objetivos da StarTimes passam por "divulgar a cultura chinesa" enquanto assegura um modelo de negócio sustentável.

Mas Dani Madrid-Morales, um pós-doutorado pela City University, de Hong Kong, que fez pesquisa sobre o grupo, considera que este "tem uma enorme componente ideológica".

"Os conteúdos selecionados mostram uma China urbana, próspera, não controversa", diz.

No programa em que Thiago Copetti participa, a seleção dos jornais e repórteres passa pela Xinhua e pela embaixada chinesa.

"A Xinhua seleciona os veículos, o veículo escolhe o repórter, que depois tem que ser aprovado pela embaixada", conta.

Copetti considera que os esforços chineses estão a produzir resultados.

"Dentro da imprensa brasileira está a começar a tendência de se pegar na matéria das agências dos EUA ou Europa e fazer o contraponto com o que a Xinhua escreve", nota.

"Há pessoas da Xinhua que visitam os jornais para divulgar o trabalho da agência", diz. "A Xinhua está a penetrar nos nossos jornais".

João Pimenta