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Patuá e gastronomia, dois traços que definem a identidade macaense

Decorre este fim de semana em Macau, junto aos Lagos Nam Van, o Forum Internacional de Gastronomia, uma demonstração culinária das cidades creativas da gastronomia da Unesco. 19 de janeiro de 2019, Macau. (ACOMPANHA TEXTO DE 20 DE JANEIRO DE 2019)  CARMO CORREIA/LUSA

 

A identidade macaense foi criada a partir de uma matriz híbrida e resiste através de traços identitários como o patuá, uma língua crioula de base portuguesa, e a gastronomia, considera o investigador Carlos Piteira.

O docente do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP) da Universidade de Lisboa, salientou que os “filhos da terra” (nome atribuído à comunidade macaense) necessitavam de uma identidade grupal para se separarem quer dos portugueses, quer dos chineses.

“As identidades criam-se porque queremos ser diferentes e a gastronomia e a língua tiveram essa função”, adiantou o antropólogo, nascido em Macau e especialista no território.

Os macaenses, um grupo mestiço com influências portuguesas, chinesas, malaias e japonesas, vai assim compondo, ao longo dos séculos, uma identidade “singular” que tem “renascido graças ao instinto de sobrevivência”, diz o investigador do Instituto do Oriente do ISCSP.

Segundo Carlos Piteira, além do patuá e da gastronomia, havia um terceiro traço identitário, a religião, que se foi “perdendo, essencialmente devido às políticas da administração” portuguesa que retiraram à igreja a competência de fazer os registos (sobre depois de 1975).

“Em Macau, a nacionalidade portuguesa dava-se por via da igreja, através do batismo. Éramos todos católicos”, lembrou.

Também o patuá macaense, um crioulo português influenciado pelas línguas cantonesa, espanhola, inglesa e malaia, que “há quem diga que foi adotado pelas senhoras macaenses para esconderem o mau português que se falava”, foi desaparecendo devido à obrigação de aprendizagem do português nas escolas imposta pela administração portuguesa.

Tinham características semelhantes: eram praticados pelas famílias dentro de casa.

Mas com a transição de Macau para a China, há 20 anos, e, “sobretudo, a globalização e as diásporas”, houve necessidade de adaptar estes traços identitários à dinâmica das sociedades modernas e redefinir a identidade macaense, levando-a para fora do espaço doméstico.

No caso do patuá, Carlos Piteira apontou a importância das tunas e das récitas do teatro em patuá, que já foi declarado património cultural intangível de Macau, para manter esta língua viva, tornando-a parte integrante da oferta turística.

O mesmo aconteceu com a gastronomia, que saiu dos lares macaenses e foi adotada pela restauração.

Nesta cozinha de fusão, onde se cruzam temperos e sabores ocidentais e orientais, muitos dos pratos tradicionais mantêm a designação em patuá, como o “diabo” ou o “balichão”, exemplificou o antropólogo.

Mas o mais famoso, sugere, será o “minchi”, uma espécie de bitoque em que o bife é substituído por carne picada e as batatas fritas são servidas aos cubos sobre uma base de arroz.

Raquel Rio