Macau: José de Guimarães, o jardineiro das “Árvores de Metal”
Arquivo Lusa 1999
Macau, 03 Nov (Lusa) - As últimas árvores mandadas plantar em Macau pela administração portuguesa foram feitas para durar para sempre e resistir a todos os tufões, além de terem a assinatura de um dos mais emblemáticos artistas plásticos portugueses.
José de Guimarães, 59 anos, autor de obras de arte espalhadas por todo o mundo, desde o Japão ao México e da Bélgica aos Estados Unidos, é o autor das "Árvores de Metal", um conjunto de oito esculturas de metal pintado com dez metros de altura, plantadas no Jardim dos Poetas, o último espaço verde construído pela administração portuguesa.
"O projecto inicial era um jardim dedicado ao pensamento, à meditação. Dentro dessa linha, inspirei-me na antiga poesia chinesa, que dá muita importância à natureza. Tentei criar um espírito místico, ligado directamente à cultura chinesa da maioria dos utentes do jardim", explica José de Guimarães.
Apesar de ir "beber" inspiração à tradição cultural chinesa, José de Guimarães é o primeiro a dizer que não troca a sua linguagem artística particular, identificada pelo uso de cores fortes, por uma linguagem mais oriental.
"Ao criar objectos de arte não pretendo impor a minha cultura, mas também não a troco por outra. O importante é criar um diálogo, sem abdicar da minha própria linguagem", diz o artista plástico.
Outra das raízes das "Árvores de Metal" é a forma dos caracteres chineses, explica José de Guimarães, acrescentando que "as formas das árvores partem da observação da caligrafia chinesa e do seu aspecto gráfico".
"As oito peças têm uma linguagem que não é nem figurativa nem abstracta e, como são coloridas, têm uma certa capacidade mágica", descreve José Guimarães, o homem que criou o logótipo de promoção internacional de Portugal, conhecido também pelos trabalhos nas estações do metropolitano de Lisboa.
Ao longo do Jardim dos Poetas, com cerca de 1,5 quilómetros de comprimento, visível das actuais instalações do futuro chefe do executivo de Macau, as esculturas construídas num estaleiro naval chinês destacam-se de dia pelas cores usadas - azul, verde, vermelho - e de noite pelas luzes de néon, das mesmas cores.
"Os néons em movimento são presenças vivas. Existindo num jardim são como uma companhia, de noite são uma espécie de espíritos", justifica o autor.
A carga simbólica está presente na "árvore" número oito, o número da sorte da cultura chinesa pela ressonância semelhante à palavra "riqueza", que está convenientemente colocada à porta do Casino Lisboa.
José de Guimarães, que se prepara para inaugurar mais uma obra nas Galerias do Chiado e está também a conceber o muro do átrio das chegadas do aeroporto de Lisboa, tem ainda em mãos projectos de intervenção urbana no Japão, nas cidades de Tóquio, Sumari e Kushiro.
"Só construindo coisas incríveis e impensáveis é que se podem alterar cidades padronizadas", conclui o homem que criou as últimas árvores portuguesas a serem plantadas em Macau.
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