Macau/Dia da Cidade: Macau comemora pela última vez a “Aljubarrota” do Oriente
Arquivo Lusa 1999
++++ Por Rui Boavida, da Agência Lusa ++++
Macau, 23 Jun (Lusa) - A origem do dia de Macau, a 24 de Junho, é daquelas histórias que só mesmo os portugueses podiam ter trazido para uma terra a 13 mil quilómetros de casa.
Há mesmo quem não consiga evitar comparações entre a batalha de Aljubarrota e a batalha de Macau, que funda o dia da cidade, e onde nem sequer falta uma heroína, uma escrava africana.
"O dia de Macau, dia de S. João Baptista, é como um mito fundador para a cidade do Santo Nome de Deus", explicou nos anos 50 o investigador e sinólogo Luís Gonzaga Gomes.
Adé dos Santos Ferreira, o mais famoso poeta do "patois", o crioulo de Macau, fala mesmo da cidade "Qui Nos Siora olá co ternura/ Qui Sám Juám Batista, milagroso/ Já ajudá livrá di mám cubiçoso". Que é como quem diz, a cidade que S. João Baptista ajudou a livrar de mãos cobiçosas.
E, segundo todos os historiadores, as mãos cobiçosas eram flamengas. "Os holandeses necessitavam de um porto onde pudessem fazer comércio com os chineses, e aquele que se afigurava mais fácil de conquistar era Macau", explica João Guedes, jornalista e investigador da história do território.
Rezam as lendas e os manuscritos da época que, a 24 de Junho de 1622, os "Olandeses, oitocentos homens com o seu próprio Capitão Cornelio Regeres ou Regres que vinha por comandante desta acção", saídos de "30 embarcações entre Lanchas e Escalleres e Catraios", foram derrotados por apenas oito soldados portugueses, um padre e uma mão cheia de escravos africanos. E tudo com um único e solitário tiro de canhão. Sorte. Tanta sorte que os homens-bons que na altura governavam Macau não puderam deixar de dar graças, a Deus e ao santo do dia. Precisamente S. João Baptista.
Se o santo teve ou não a ver com a vitória é coisa discutível. Agora, o que ninguém põe em causa é que os acontecimentos não correram exactamente como a tradição oral e a memória das gentes os foram guardando.
Segundo relata João Guedes, baseado em diversos historiadores, os portugueses estavam apenas num daqueles dias em que tudo corre bem. Os holandeses não sabiam exactamente quantos homens tinha a guarnição de Macau, mas o primeiro tiro de canhão disparado - mais em sorte do que em jeito - das bandas da cidade afundou-lhes logo uma nau. "A mais velha, a mais maltratada e a mais carregada", conta Charles Boxer, o historiador inglês que melhor estudou a expansão portuguesa no Oriente.
Segundo Boxer, um segundo tiro, agora de mosquete, acertou mesmo no peito do tal Regeres, ou Regres, capitão temível. Já com a moral em baixo, mas ainda seguros de que a cidade era presa fácil, visto que não tinha muralhas, os holandeses decidem desembarcar em Macau.
De acordo com os escritos do século XVII, a cidade era um deserto nesse dia, com os habitantes refugiados nas fortalezas. Os tais oitocentos holandeses avançavam pelas ruas sem verem vivalma.
Até que um padre Jesuíta, com um disparo de canhão, acerta mesmo na carroça que carregava as munições dos invasores.
E é aqui que a lenda se confunde com a de Aljubarrota. Na altura, escrevia um cronista anónimo, em documento que ainda hoje se encontra nos arquivos da Biblioteca de Macau: "Com os Olandeses em desordem, teve lugar o povo miúdo para os irem seguindo, e os seguirão com tanto empenho que athé uma escrava Cafra fez as vezes da Forneira de Algebarrota, pois asseverão alguns que ella mattara alguns Olandeses com hum espeto".
Ainda segundo o mesmo relato, à frente da corajosa escrava africana, corriam os holandeses, deixando para trás mais de quinhentos homens, oito bandeiras e muitas armas. Uma esmagadora vitória, em que nem os portugueses podiam acreditar.
377 anos depois, no que vários cidadãos de Macau não podem acreditar é que quinta-feira se comemora oficialmente, pela última vez, o dia em que uma "escrava Cafra" pôs em fuga centenas de flamengos. Quer seja verdade ou fantasia.
José Saraiva vive em Macau há 15 anos. É funcionário público e diz que tem pena que os anjos e coroa da bandeira do município sejam içados pela última vez, a marcar o feriado da cidade.
"Desde que cá estou, comecei a perceber o que tinha sido o Portugal e os portugueses ultramarinos. Apercebi-me do que era a história de Portugal e a história desta cidade. Ao mesmo tempo, fui-me sentido cada vez mais parte dela, e quis colaborar, fazer parte da vida de Macau. No dia da cidade, isso sente-se de uma maneira mais especial", diz José Saraiva.
Este português de Viseu recusa-se mesmo a admitir o fim da celebração: "Eu pelo menos vou continuar a comemorá-la, mesmo que mais ninguém a comemore", desabafa José Saraiva.
É a isto que António Manuel dos Santos, macaense de gema e vereador do município da cidade, chama "viver a festividade no coração". António Santos garante que também para ele "este dia da cidade não vai ser o último. Eu vou continuar a celebrá-lo com o mesmo espírito".
O santo que desde a invasão holandesa vem protegendo a população Macau não pode agora fazer nada. A quase seis meses da passagem de administração do território para a China, S. João Baptista revela-se impotente perante a passagem do tempo e os acordos políticos. A República Popular já decidiu trocar o mito pela realidade terrena. Sai o dia 24 de Junho do calendário oficial, bem-vindo seja o dia 20 de Dezembro, data em que Macau muda de mãos.
Mas os macaenses de raiz não parecem convencidos e dizem, como Adé dos Santos Ferreira, que "Qual manso cordeiro/ Macau passará da Pátria para outras mãos".
Lusa/Fim