Macau/99: Portugal abandona Macau sem deixar base empresarial forte
Arquivo Lusa 1999
+++ Por Fernando Correia, da agência Lusa +++
Macau, 02 Dez (Lusa) - Quatro séculos e meio depois de os portugueses terem sido senhores do mar e terem chegado às praias do sul da China, Portugal deixa Macau sem que permaneça no território qualquer presença empresarial nacional forte.
Tendo entrado numa sonolência colonial depois de os ingleses se terem estabelecido no século passado em Hong Kong, Macau veio a acordar apenas nos anos 80 deste século quando o então governador Almeida e Costa inicia o processo de desenvolvimento do território, na sequência da renegociação do contrato de concessão de jogos de fortuna e azar.
Mas antes disso já Macau tinha beneficiado da decisão dos grandes países de estabelecerem quotas para a importação de produtos têxteis. A República Popular da China ainda estava fechada ao mundo e os proprietários de fábricas de Hong Kong decidem abrir sucursais em Macau, a fim de aproveitar as quotas adicionais.
É precisamente durante o mandato de Almeida e Costa que são negociados os contratos de concessão de telecomunicações, abastecimento de água e fornecimento de energia eléctrica, serviços fundamentais para que qualquer economia possa entrar num processo de desenvolvimento sustentado.
As verbas para que a administração pudesse criar as infraestruturas necessárias têm origem nas receitas fiscais geradas pelo jogo. E é precisamente aqui que a administração joga a sua cartada, procurando associar ao "mar" de obras públicas, que se estava a iniciar, as grandes empresas de construção civil portuguesas que, na sua quase totalidade, detiveram uma carteira de obras em Macau.
"As empresas portuguesas do sector da construção civil foram mais do que apadrinhadas pela administração, foram mesmo acarinhadas. Mas tal facto não impediu que uma após outra se tenham ido embora", disse uma fonte ligada a um grande projecto em Macau.
A mesma fonte referiu que tendo feito uma "entrada de leão", essas empresas acabaram por ter uma "saída de sendeiro" por decisão estratégica ou porque aproveitaram a chamada "árvore das patacas" para descapitalizar as empresas incorporadas localmente para os seus projectos em Portugal ou noutros países.
Caso paradigmático é o da Construções Técnicas/Interfina, de Ferro Ribeiro, que chegou a ter o projecto da Nam Van, no montante de 1.500 milhões de patacas (cerca de 36 milhões de contos). Quando abandonou o projecto, a Sociedade de Empreendimentos Nam Van tinha, de acordo com a fonte, um passivo de 300 milhões de patacas.
Que fica então após quase 450 anos de presença portuguesa em Macau? Ficam instituições bancárias e seguradoras, a CESL Ásia (do grupo Somague), a Efacec com uma fábrica de alternadores e transformadores no Parque Industrial da Concórdia e a Hovione, com a sua fábrica de produtos farmacêuticos.
Fonte empresarial contactada pela agência Lusa afirmou que a Efacec é capaz de ser a única empresa portuguesa com uma estratégia definida para a Ásia, pois, além da unidade em Macau, possui uma outra na China e dispõe de contratos com a Malásia e Hong Kong.
Outras empresas e grupos portugueses limitam-se a deter participações financeiras em algumas empresas de incorporação local.
Começando pelo grupo Caixa, fica o Banco Nacional Ultramarino (BNU), um dos dois bancos emissores do território, enquanto o grupo BCP/Altântico mantém-se com o Banco Comercial de Macau (BCM), as duas grandes instituições bancárias que habitualmente servem os portugueses residentes. Este último grupo detém ainda a Companhia de Seguros de Macau, através da Gere Seguros e Pensões.
A maioria dos grupos financeiros portugueses, tais como o BES ou o antigo Mundial/Confiança também mantêm balcões em Macau, havendo ainda a mencionar o Finibanco.
Quanto às participações, temos o consórcio Serviços, Administração e Participações Lda, entre a TAP, o BNU e o BCM (25 por cento) e o IPE (1,0 por cento) no capital social da Air Macau, a Electricidade de Portugal (EDP) com uma participação de 22 por cento no capital da Companhia de Electricidade de Macau (CEM), através da sua participada a 99 por cento SPE.
A Portugal Telecom, por seu turno, participa no capital social da Companhia de Telecomunicações de Macau (CTM), onde detem 28 por cento.
Mas embora Macau seja um território de pequenas dimensões, o número de grupos e empresas portuguesas com interesses directos no território não espelha minimamente nem o mundo empresarial português, nem o número das suas empresas.
Deste alheamento se queixava "amargamente" o presidente do grupo Caixa, por ocasião da divulgação de resultados semestrais da sucursal de Macau do Banco Nacional Ultramarino, ao dizer que nenhuma empresa tinha aproveitado a estrutura que o grupo detinha e detém no sentido de se instalar ou negociar com esta região do mundo.
Referindo que o esforço de internacionalização português se estava a concentrar na Polónia e no Brasil, João Salgueiro afirmava ainda ser talvez necessário que uma empresa se instalasse na Ásia com êxito para que, de repente, muitas outras quisessem reproduzir o exemplo da bem sucedida.
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