Macau/99: O adeus de Rocha Vieira a Santa Sancha
Arquivo Lusa 1999
Macau, 19 Dez (Lusa) - O senhor Zacarias é reformado e por isso não pode estar entre os funcionários que se despediram de Rocha Vieira em Santa Sancha. Mas foi até ao portão para dizer adeus ao último governador português de Macau.
"Estou muito triste. Nunca pensei que isto acontecesse no meu tempo", lamentou António Zacarias, 71 anos, 33 dos quais como funcionário do Estado em Macau.
Do portão, Zacarias viu antigos colegas alinhados ao lado de outros funcionários da residência do Governador de Macau, 32 pessoas no total. Os motoristas com boné branco, os cozinheiros com o tradicional "chapéu de chefe", as serventes com os uniformes, os jardineiros com fatos chineses.
Algum tempo antes da saída da família Rocha Vieira, todos eles estavam alinhados à frente da entrada da casa, um palacete que é um mistério: não há documentos sobre a sua origem, sabe-se apenas que é do século XIX e pensa-se que terá sido obra de José Agostinho Tomás de Aquino, um arquitecto macaense.
Santa Sancha serviu de residência oficial dos governadores de Macau desde 1937 até hoje. Às 16:30 locais, viu sair o seu derradeiro morador: Vasco Joaquim Rocha Vieira, 60 anos, oficial general do exército.
A saída tinha sido ensaiada dias antes. Um colaborador de Rocha Vieira confidenciou que essa foi a verdadeira despedida, quando "todos choraram à vontade, porque não havia câmaras de televisão, nem fotógrafos".
Quando faltavam poucos minutos para a saída do governador, o mesmo colaborador "revelou" o estado de espírito de Rocha Vieira: ansioso, mas não nervoso. E confidenciou mesmo que o filho do meio, o João, que vai ficar em Macau, andava de bloco na mão atrás do pai a anotar o que terá ficado por fazer.
Antes de o governador sair de casa, colaboradores seus fizeram os últimos ensaios. Cumprimentaram os funcionários, antecipando os passos de Rocha Vieira para que as câmaras das televisões verificassem, mais uma vez, os enquadramentos.
A certa altura, uma produtora protestou contra a colocação dos fotógrafos, que lhe estragavam um dos planos. Foram recolocados, apesar de protestarem que também estavam ali para trabalhar.
Com pontualidade britânica, a família Rocha Vieira saiu às 16:30 da casa, dirigindo-se de imediato para a fila de funcionários.
A cada um deles, o governador disse adeus, deixou cumprimentos para a família e desejou boa sorte. Ele primeiro, depois a mulher, Leonor, e os filhos Pedro (22 anos), João (21) e Filipe (15).
Apesar da "verdadeira despedida" de há dias, a maioria dos 32 funcionários (apenas dois não são chineses) não resistiu ao último aperto de mão, ao último beijo, ou ao último abraço, e chorou. Um ou outro convulsivamente.
Para já, muitos deles ficam à espera do que lhes reserva o futuro. A Dona Maria Sousa, a governanta, nascida em Macau há 46 anos, fica a trabalhar no consulado-geral de Portugal e o encarregado da residência nos últimos onze anos, Fernando Cardoso, regressa a Portugal.
O adeus da família de Rocha Vieira aos funcionários de Santa Sancha durou cerca de cinco minutos. Depois de um último aceno com a mão, entraram em duas viaturas, Rocha Vieira e mulher na da frente, os filhos na de trás. Com três batedores a abrir caminho, seguiram para o Palácio do Governador, na Praia Grande, para a cerimónia do arriar da bandeira nacional.
Em Santa Sancha, os funcionários continuaram alinhados durante alguns minutos, como se esperassem ordem de dispersar. A Dona Maria continuava a chorar, apesar de um cozinheiro a tentar confortar, com umas palmadinhas nas costas.
Aos jornalistas, a Dona Maria soluçou que lhe doía o coração.
Pouco mais conseguiu dizer, mas ainda desabafou: "gosto muito do senhor governador e da família, sempre nos trataram muito bem".
O encarregado da residência também estava emocionado e disse que a despedida foi "muito difícil". Natural do Alentejo, Fernando Cardoso, 47 anos, regressa a Portugal na próxima madrugada e confidenciou que deverá levar consigo a bandeira nacional que estava içada em Santa Sancha quando o governador saiu da residência.
"Se calhar, vou levá-la para recordação", admitiu, enquanto se ouvia uns metros abaixo o entusiasmo de dois tenistas que jogavam uma partida no campo do Ténis Civil, como se a transferência de Macau para a China lhes passasse ao lado.
Lusa/Fim