Macau/99: Edmund Ho apresenta documentos de candidatura a Chefe do Executivo da futura RAEM
Arquivo Lusa 1999
Macau, 17 Abr (Lusa) - O banqueiro Edmund Ho Hau Wah apresentou hoje formalmente no Gabinete do Secretariado da Comissão Preparatória (CP) da Região Administrativa Especial de Macau (RAEM) a sua candidatura a futuro Chefe do Executivo da RAEM, a partir de 20 de Dezembro de 1999.
Edmund Ho, 44 anos, deverá ser certamente o candidato escolhido a 15 de Maio, pelo Comité de Selecção da CP da RAEM, para assumir a governação de Macau, tornando-se assim no primeiro "governador" local de etnia chinesa depois de mais de 450 anos de administração portuguesa.
Formado em gestão numa universidade do Canadá, Edmund Ho Hau Wah é membro do Comité Permanente da Assembleia Nacional Popular chinesa, o "supremo órgão do poder de Estado" na China, vice-presidente da Comissão Preparatória da RAEM, vice-presidente da Assembleia Legislativa de Macau e Presidente da Associação de Bancos.
Edmund Ho é filho do antigo líder da comunidade chinesa de Macau, Ho Yin, que possuía importantes ligações com o governo comunista de Mao Zedong e que teve papel de destaque como elemento de ligação entre as autoridades portuguesas de Macau e o governo de Pequim antes do estabelecimento de relações diplomáticas entre Portugal e a República Popular da China.
Apesar de não o declararem publicamente, tanto as autoridades de Pequim, de Lisboa e de Macau vêm com agrado que Edmund Ho se torne no primeiro Chefe do Executivo da RAEM.
Logo após a criação da Comissão Preparatória (CP) da RAEM, em Maio de 1998, o jornal oficial chinês de língua inglesa, "China Daily", publicou na primeira página uma fotografia do presidente Jiang Zemin a cumprimentar Edmund Ho, o que foi interpretado como um sinal da preferência de Pequim.
Edmund Ho é considerado pelas autoridades portuguesas um "conservador, moderado, amigo dos portugueses e defensor de algumas das politicas que o governo português de Macau lançou nomeadamente a estratégia de que o território pode servir de plataforma entre a Comunidade Europeia e a China".
Ao anunciar a sua candidatura na quinta-feira passada Edmund Ho lembrou que os portugueses de Macau "fazem parte da vida" do território e "continuarão a fazer" depois da transferência da administração para a China.
"Os portugueses naturais e residentes de Macau serão encarados (depois da transferência da administração) da mesma maneira que todos os outros cidadãos", disse Edmund Ho.
Edmund Ho Hau Wah apresentou-se, na altura, como pretendente ao cargo de Chefe do Executivo com um programa de candidatura que acentua questões de economia e segurança pública.
"Macau não deverá depender apenas do jogo, tem de apostar na diversificação da economia" disse Edmund Ho, adiantando que caberá às "regras do mercado" determinarem a direcção dessa diversificação.
Edmund Ho, que tem no magnata do jogo Stanley Ho (sem parentesco) um dos principais apoiantes declarados da sua candidatura, considerou "uma questão a ser analisada cuidadosa e objectivamente em 2001" a eventual renovação em regime de monopólio da concessão de exploração do jogo à Sociedade de Turismo e Diversões de Macau.
Na área da segurança pública, o candidato a chefe do executivo propôs uma "reorganização das polícias para as tornar mais eficazes" e o "reforço de legislação de combate à criminalidade".
Na apresentação da sua candidatura, Edmund Ho tratou também de afirmar a solidariedade institucional necessária entre a RAEM e Pequim, referindo não ser aceitável que existam conflitos entre os governos da região administrativa e o central da República Popular da China, que "nada fará que seja negativo para os interesses de Macau".
"Estou profundamente convicto de que os princípios um país dois sistemas, Macau governada pela sua população e elevado grau de autonomia [enunciados por Pequim como orientadores do funcionamento da futura RAEM] são a melhor garantia para se solucionar os actuais problemas de Macau e, ao mesmo tempo, se atingir uma estabilidade e uma prosperidade permanentes", disse.
Adiantou ainda haver lugar para o desenvolvimento do relacionamento entre Macau e Taiwan - que a China considera uma "província renegada" - nas áreas do turismo e cultura e defendeu a necessidade de manter uma "relação íntima" entre o território e a adjacente Zona Económica Especial de Zhuhai.
O mais directo rival de Edmund Ho ao cargo de Chefe do Executivo será o banqueiro de Macau Stanley Au Chong Kit, que formalizou a sua candidatura ao cargo nos primeiros dias da semana.
Stanley Au, 58 anos, nasceu em Macau tendo completado os estudos primários e secundários no território. Após a conclusão dos estudos secundários iniciou em Hong Kong a sua actividade bancária até chegar a presidente do grupo financeiro "Delta Asia".
Actualmente, Stanley Au é membro da Comissão Preparatória da Região Administrativa Especial de Macau, administrador da Associação de Caridade do Hospital Kiang Wu, presidente do Conselho de Gestão da Associação de Pequenas e Médias Empresas de Macau e director da Sociedade de Relações Externas de Pequim e da Associação Popular para a amizade com países estrangeiros da província chinesa de Guangdong.
Para além de Edmund Ho e Stanley Au apresentaram-se igualmente como candidatos ao cargo de Chefe do Executivo sete outros residentes chineses de Macau completamente desconhecidos social e politicamente.
O Chefe do Executivo da futura Região Administrativa Especial de Macau deverá ser escolhido pelo Comité de Selecção, composto por 200 personalidades de Macau, em reunião plenária a realizar em Macau a 15 de Maio e confirmado, no dia seguinte, durante a reunião
da Comissão Preparatória da RAEM em Zhuhai, na Zona Económica Especial chinesa, vizinha a Macau.
A personalidade designada será apresentada ao governo central chinês, em Pequim, que a nomeará oficialmente para o cargo poucos dias depois.
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