Macau/99: Crime organizado – acalmia antes da integração na China
Arquivo Lusa 1999
+++ Por Paulo Alves Nogueira, da Agência Lusa +++
Macau, 12 Dez (Lusa) - Após um período de cerca de três anos de violência atribuída a uma guerra entre seitas, a calma voltou novamente às ruas de Macau, a poucos dias da integração do território na China.
Especialistas no combate ao crime organizado admitem que ocorreu uma guerra entre seitas pelo controlo de salas e de actividades marginais ao funcionamento dos casinos de Macau, principalmente agiotagem e prostituição, mas consideram que o "mau tempo já terá passado".
"Não se prevê um novo assomo de violência como o que ocorreu, mas guerras entre seitas existirão sempre, em maior ou menor grau", comentou à Lusa o jornalista e antigo investigador policial João Guedes, considerado um dos grandes especialistas em crime organizado em Macau.
Para João Guedes, a "guerra" entre seitas foi uma "consequência natural" da integração de Hong Kong na China, em Julho de 1997, e da crise financeira que afectou nos últimos anos a região asiática.
"Havendo menos receitas, são menores os lucros para distribuir, o que leva a conflitos entre os grupos marginais", justificou.
Nos últimos três anos, dezenas de pessoas foram mortas em Macau, mas a onda de criminalidade quase nunca extravasou o mundo restrito dos grupos marginais, até porque a maioria das vítimas estava alegadamente relacionada com as seitas, ou com o seu combate.
A notoriedade do conflito foi dada pelo número inusitado de crimes, mas também pela espectacularidade de algumas das acções, sobretudo pelas autênticas "execuções" consumadas em plena rua e, por vezes, testemunhadas por transeuntes.
Com a colaboração das polícias da China e de Hong Kong, as autoridades de Macau prenderam destacadas figuras do estado-maior da seita "14 Quilates", ou "14K", como é mais conhecida, e o respectivo líder, Wan Kuok-koi, foi condenado recentemente a 15 anos de prisão por um tribunal do território.
"Foi um duro golpe na 14K, até porque Wan Kuok-koi parecia convencido que nada lhe aconteceria", comentou uma fonte judicial.
O certo é que Wan, 44 anos, foi considerado culpado e está agora detido numa ala especial de segurança da prisão de Coloane, depois de ter ganho notoriedade por se afirmar líder da 14K em entrevistas a diversas revistas, incluindo as norte-americanas "Time" e "Newsweek".
O "high profile" de Wan suscitou mesmo dúvidas sobre a genuinidade da sua liderança da 14K, dado que uma das características das seitas é precisamente o secretismo dos seus dirigentes.
O fenómeno das seitas secretas chinesas, ou tríades, não é exclusivo de Macau, mas sim de âmbito global. "Trata-se de crime organizado, que tem tentáculos em todo o mundo. Macau é apenas um dos locais onde actuam as seitas", explicou uma fonte policial.
A origem das seitas na China é habitualmente relacionada com fenómenos de culto religioso. A actuação destes grupos evoluiu para o campo político e, na ausência de motivações políticas, para a criminalidade.
"As seitas tiveram sempre uma importância histórica muito grande", nota João Guedes, salientando que as tríades foram responsáveis pelo derrube de governos na China.
Há quem situe o nascimento das tríades no ano 32 A.C., mas João Guedes prefere falar no "início da nossa era", quando surgiu a seita "Sobrancelhas Vermelhas".
Em Macau, segundo o mesmo especialista, as seitas fizeram-se sentir em 1849, quando membros do grupo "Anciãos" executaram o governador Ferreira do Amaral perto da fronteira da Porta do Cerco.
A partir de 1850, as seitas constituíram parte importante da pirataria no delta do rio das Pérolas, onde se situa Macau, e no início do século o problema assumiu uma dimensão grave com o ataque ao vapor "Sui Han", que fazia ligações entre Cantão, Hong Kong e o território.
Em 1910, a marinha portuguesa efectuou uma operação de grande envergadura de combate à pirataria, com o bombardeamento da vila de Coloane, e, curiosamente, entre os piratas mais famosos dos anos 20 e 30 surge o nome de uma mulher, Lai Soi Chan.
A 14K, segundo João Guedes, surgiu de uma associação secreta criada pelo general Kot Siu Wong para combater a infiltração de comunistas no Kuomintang, o partido nacionalista chinês, de Chiang Kai-shek, que derrubou a dinastia Manchu, em 1912.
Com a vitória do Partido Comunista na guerra civil e a consequente proclamação da República Popular da China, em 1949, por Mao Zedong, as forças do Kuomintang refugiaram-se na ilha de Taiwan - ainda hoje reclamada por Pequim -, mas o general Kot fugiu para Hong Kong, onde a sua organização secreta deu origem à 14K.
Kot acabou por ser preso pelos ingleses, mas os seus homens continuaram activos e, face à ausência de objectivos políticos, enveredaram pelo crime e estenderam posteriormente as suas operações a Macau e ao sul da China.
Além da 14K, são actualmente referenciadas em Macau as seitas Son I On, originária de Hong Kong, e a Gasosa, criada num restaurante da ilha da Taipa nos anos 50.
Em Macau, tem actuado também a seita "Grande Círculo", ou "Tai Yiun" (assim chamada por desenvolver a sua actividade num círculo em torno de Cantão), que foi responsável pelo assalto a um carro blindado de transporte de dinheiro no hotel Lisboa, em 1979, naquela que foi a grande acção de uma seita antes da recente violência no território.
Especialistas no combate ao crime organizado calculam que cerca de 10.000 membros de seitas vivam em Macau, mas apenas cerca de 4.000 estarão activos.
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