Macau 99: A um dia da China
Arquivo Lusa 1999
+++Por Gonçalo César de Sá, da agência Lusa+++
Macau, 19 Dez (Lusa) - Macau vai acordar dentro de 24 horas como parte integrante da China, apenas com um estatuto de autonomia e de diferença garantido por Pequim durante os próximos 50 anos.
Para que não haja qualquer dúvida desse facto, o mais simbólico instrumento de poder na China - o Exército Popular de Libertação (EPL) - entrará na fronteira das Portas do Cerco, que delimitou as relações entre Portugal e a China durante mais de quatro séculos, percorrerá algumas das zonas mais populosas da cidade e aquartelará bem no centro da cidade.
A recente decisão de mudar o nome e o brasão do Leal Senado de Macau, símbolos do poder português, logo depois da meia-noite de domingo, é igualmente um sinal dos ventos de mudança de Macau.
Os mais optimistas recordam que se mantêm vários dirigentes portugueses e macaenses nos aparelhos administrativo, legislativo e judicial de Macau, mas o "sentimento" é de que estão a "prazo" se não conseguirem rapidamente falar, ler e escrever em chinês.
Os consensos obtidos por Portugal e a China no que toca à igualdade das línguas portuguesa e chinesa são um factor positivo, mas a sua aplicação não será fácil se se tiver em conta que a partir do dia 20 de Dezembro o chinês passa a ser a língua do poder administrante no território.
Portugal pode orgulhar-se de deixar um território infraestruturado, com uma identidade que resulta de uma convivência de quatro séculos de portugueses e chineses, um património luso-chinês único no mundo e o primado da lei instituído, mas alguns interrogam-se se isso é suficiente para tornar Macau diferente de milhares de outras cidades chinesas.
" Macau é uma cidade para elogiar. Portugal deixa uma jóia para a China e uma diferença no modo de estar na China", assegura John Carrey, um turista que veio a Macau passar os últimos dias de administração portuguesa.
Sem a bandeira de Portugal a população divide-se entre o tradicional patriotismo chinês e a "pontinha de tristeza" de ver partir um colonizador de brandos costumes", que se miscigenou e, ao longo dos séculos, foi sempre um "intermediário".
"Claro que sou chinesa. Não rejeito a minha condição, mas os portugueses ensinaram-nos a ser diferentes e livres", desabafou Sally Tang, uma das centenas de jovens chinesas envolvidas na coordenação das cerimónias de transferência de poderes.
A China deixou claramente Portugal ganhar o "round" de hoje, dia 19 de Dezembro, com uma festa consensual e com a amizade luso-chinesa a ser o "prato forte" dos discursos, mas empenhou todos os seus meios e capacidades para ser o único vitorioso do "round" do dia 20.
Depois das grandes festas do dia nacional da República Popular da China, em 01 de Outubro, Pequim empenhou todos os seus meios em Macau nomeadamente a entrada das tropas, manifestações de massas e mobilização dos "media" chineses ou pró-China.
Para as cerca de 500 famílias de portugueses que ficam em Macau, uma nova época maioritariamente chinesa vai iniciar-se, mas, como afirmava hoje o reformado da polícia, José Manuel da Silva: "em Macau tudo vai continuar a ser fácil pela pequenez do território e porque nos conhecemos todos bem, sejamos portugueses ou chineses".
Se hoje as bandeiras portuguesa e chinesa dão o tom do que vai acontecer, o dia 20 marcará a diferença porque o verde e vermelho já nada terão a ver com Portugal, mas apenas com as bandeiras da China e da Região Administrativa Especial de Macau (RAEM).
O chefe do executivo da RAEM, Edmund Ho Hau Wah, é uma personalidade de consensos e com experiência de relações internacionais permitindo-lhe entender que só a diferença garantirá que Macau se mantenha no sistema capitalista. Mas a vaga de fundo chinesa, pelo menos nos próximos tempos, será seguramente muito forte.
Para reforçar a tese do patriotismo, as televisões da China repetem até à exaustão um vídeo-clip alusivo à passagem de Macau para a República Popular da China onde as autoridades de Pequim lembram que o "verdadeiro nome" do território é Ao Men (na língua oficial chinesa) e não Macau.
"Sabes que Macau não é o meu verdadeiro nome?", perguntam centenas de crianças num hino entoado em coro na escadaria das Ruínas de S. Paulo, o principal ex-libris local.
"Estive afastada de ti demasiado tempo, Mãe! Mas o que eles roubaram de mim foi apenas o meu corpo. A minha alma foi sempre tua no fundo do meu coração!", repetem os pequenos cantores.
Este é o pensamento de Pequim em relação a Macau. Uma posição que não é partilhada por todos os que vivem no território onde portugueses e chineses se encontraram no século XVI.
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