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De onde vem XI Jinping?

Reeditado. Foto de arquivo de Xi Jinping





João Pimenta




À entrada da aldeia Liangjiahe, no árido noroeste chinês, três dezenas de polícias fardados ouvem uma guia contar as façanhas do Presidente Xi Jinping durante um dos períodos mais brutais na história da China comunista.


Os polícias seguem depois um trajeto de centenas de metros, onde examinam um poço e um sistema que converte estrume em gás metano, construídos por Xi, que em dezembro de 2018 visitou Portugal, durante os sete anos que o forjaram no líder chinês mais forte das últimas décadas.


"Viemos estudar o pensamento de Xi Jinping na Nova Era", explica à agência Lusa um funcionário público da província de Shandong, que dista quase mil quilómetros.


Um segundo grupo, composto por 40 funcionários do município de Pequim, viajou 11 horas de comboio. Outros viajaram oito horas de camioneta, desde Hubei, no centro do país.


Situado no interior da província de Shaanxi, Liangjiahe tornou-se um destino obrigatório para funcionários públicos chineses e os quase 90 milhões de membros do Partido Comunista Chinês (PCC), desde a ascensão ao poder, em 2013, de Xi, considerado um dos líderes mais fortes na história da República Popular, comparável ao seu fundador, Mao Zedong.


É aqui, a centenas de quilómetros da China próspera do litoral, que Xi Jinping diz ter-se formado politicamente.


"Muitas ideias e características minhas foram concebidas em Liangjiahe", afirmou numa entrevista, em 2004. "Como se costuma dizer: a faca afia-se contra a pedra; as pessoas fortalecem-se nas adversidades", disse.


Desde que assumiu a liderança da China, em 2013, Xi tornou-se o centro da política chinesa, desmantelando o sistema de "liderança coletiva" cimentado pelos líderes do país desde finais dos anos 1970.


Em março de 2018, durante o encontro anual do legislativo chinês, conseguiu abolir o limite de mandatos para o seu cargo, criar um organismo com poder equivalente ao do executivo, para supervisionar a aplicação das suas políticas em todo o país, e promover aliados a posições chave do regime.


Xi Jinping chegou a Liangjiahe em 1969, seguindo um fluxo de jovens urbanos para as aldeias do interior, para "aprenderem com os camponeses", parte de uma radical campanha de massas lançada por Mao. Tinha 15 anos.


A China estava então mergulhada no caos e violência: dezenas de milhões de pessoas foram perseguidas, presas e torturadas sob a acusação de serem reacionárias ou "inimigos de classe". Mais de um milhão morreu.


Filho do general Xi Zhongxun, o atual Presidente chinês estudava até então num liceu de Pequim, que passou a ser considerado um "berço para mimar os filhos dos altos quadros do partido e gerador de uma classe sucessora da burguesia".


O pai, classificado de "revisionista infiltrado", foi enviado para trabalhar numa fábrica de tratores, antes de ser preso. A sua irmã mais velha, Xi Heping, suicidou-se.


Nas ruas da capital chinesa, Xi passou a ser vítima dos abusos dos guardas vermelhos, os jovens radicais que constituíam "a vanguarda da Revolução Cultural", antes de ser enviado para Liangjiahe.


"Toda a gente no comboio chorava, mas eu sorria", recordou o líder chinês. "Se eu não deixasse Pequim, não sei se sobreviveria", acrescentou.


Nas paredes da gruta onde Xi passou a sua adolescência estão afixadas fotografias suas na aldeia e edições dos anos 1960 do jornal oficial do PCC. Garrafas térmicas, lâmpadas de querosene e uma cama espartana dão ao local um ar autêntico.


Entre quase 30 livros que Xi terá deixado na aldeia, além de obras sobre Marxismo e a revolução soviética, constam os romances "O Velho e o Mar", de Ernest Hemingway, ou "Noventa e três", de Victor Hugo.


"Os camponeses lembram Xi como um leitor voraz, que gostava de lhes contar sobre as histórias que lia", conta à Lusa uma local.


Os funcionários que acorrem a Liangjiahe - no ano passado a aldeia recebeu mais de um milhão de visitantes - envergam um crachá com a inscrição "em formação".


Mas Zhan, um taxista local de 27 anos, desmistifica: "Na verdade, eles só vêm divertir-se".


Às 23:00, o mercado noturno de Yan'an enche-se de jovens membros do PCC, oriundos de vários pontos da China. Nas mesas das esplanadas, que acomodam baldes de cinco litros de cerveja e espetadas de carne, brindam e festejam.