Macau/99: Aperto de mão de Sampaio e Jiang sela transferência de poderes
Arquivo Lusa 1999
Macau, China, 20 Dez (Lusa) - Um aperto de mão de cerca de oito segundos entre os presidentes Jorge Sampaio e Jiang Zemin selou hoje a transferência de Macau de Portugal para a China, pondo termo a 442 anos de administração portuguesa no território.
Momentos antes do aperto de mão presidencial, exactamente às zero horas de 20 de Dezembro, tinha nascido a Região Administrativa Especial de Macau (RAEM), conforme fora estipulado pelos dois países, quando em 13 de Abril de 1987 assinaram, em Pequim, a Declaração Conjunta Luso-Chinesa.
Um dos momentos mais aplaudidos pelos participantes na cerimónia foi o do abraço entre Vasco Rocha Vieira, o último governador português de Macau, e Edmund Ho Hau Wah, o primeiro chefe do executivo da RAEM.
Logo de seguida, já as altas entidades chinesas tinham abandonado o palco do pavilhão, Jorge Sampaio fez questão de distinguir Rocha Vieira com uma saudação especial, levando a maioria dos presentes a aplaudir o último governador de Macau, numa homenagem que não estava prevista no rigoroso alinhamento da cerimónia.
Com toda a decoração da sala e disposição das cadeiras do palco divididas entre Portugal e a China, o início da cerimónia foi antecedido pela exibição, alternada, das bandas dos exércitos dos dois países.
"Parece um concurso de bandas", comentou um dos cerca de 200 jornalistas que acompanharam a cerimónia numa bancada especial.
Momentos antes da entrada das duas delegações de altas entidades, o mestre de cerimónias português chamou por Vitor Sá Machado, Fausto Correia e Coimbra Martins, pedindo-lhes que ocupassem os seus lugares, ainda vazios, na bancada por trás do palco.
Mais atrasada ainda, e em lugar de maior destaque (ao lado da mulher do presidente Sampaio), chegou a mulher do vice-presidente da Assembleia da República, Narana Coissoró, que só fez a sua aparição depois do discurso de Jorge Sampaio.
Ao lado de Jorge Sampaio, no lugar destinado às altas entidades, sentaram-se o primeiro-ministro, António Guterres, o ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, Jaime Gama, o vice-presidente da Assembleia da República, Narana Coissoró, e o Governador de Macau, Rocha Vieira.
Do lado da China, a delegação em destaque era formada, além de Jiang Zemin, pelo primeiro-ministro, Zhu Rongji, o vice-primeiro-ministro Qian Qichen, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Tang Jiaxuan, e o chefe do executivo da RAEM, Edmund Ho Hau Wah.
Depois das saudações pelas guardas de honra, Jorge Sampaio discursou e garantiu que "Portugal continuará solidário com Macau, empenhado no seu futuro e certo que, também aqui, a democracia e a liberdade são realidade insubstituível e penhor da paz e do progresso para todos os povos".
Com um jogo de luz a projectar as cores nacionais durante o seu discurso, Sampaio dirigiu-se ao lugar de Jiang Zemin e cumprimentou o seu homólogo chinês, num gesto que foi aplaudido pela assistência.
Seguiu-se o momento do arriar das bandeiras de Portugal e do Leal Senado, enquanto a banda do exército tocava o hino nacional, que foi cantado pela assistência portuguesa.
Quando era meia-noite, foi a vez de se ouvir o hino nacional chinês e de serem içadas as bandeiras da República Popular da China e da Região Administrativa Especial de Macau.
Nascia então a RAEM e o momento foi saudado entusiasticamente pelos chineses e muitos macaenses, mas por poucos portugueses.
Foi então a vez do discurso de Jiang Zemin, interrompido com muitas palmas quando dirigiu "cordiais saudações e os melhores votos aos compatriotas de Macau que acabam de regressar ao seio da Pátria".
Jiang - que marcou o momento em que quis ser aplaudido dando uma entoação mais forte à sua voz - referiu igualmente que o "governo e povo chineses têm a confiança e a capacidade para resolver, quanto antes, a questão de Taiwan e concretizar a reunificação completa da China".
A cerimónia de transferência proporcionou também alguns encontros curiosos, como o de Mário Soares e Ramalho Eanes, que o protocolo sentou lado a lado, o mesmo acontecendo a Maria de Lourdes Pintasilgo e Francisco Pinto Balsemão.
Chris Patten, o último governador inglês de Hong Kong, cruzou-se com Tung Chee Wah, o actual chefe do executivo da Região Administrativa Especial de Hong Kong.
Saudado efusivamente por muitos dos presentes, Xanana Gusmão ocupou o seu lugar na terceira fila da plateia.
No final da cerimónia, e ao contrário do que acontecera até então, foi notória uma certa desordem com alguns dos convidados a abandonarem a sala antes ainda de as guardas de honra o terem feito.
No entanto, em menos de 15 minutos os 2.500 convidados já estavam ao frio que se fazia sentir no estuário do rio das Pérolas.
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