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Macau/99: Novos restaurantes portugueses apostam na zona das cerimónias

Arquivo Lusa 1999

+++ Por Casimiro Simões, da agência Lusa +++

Macau, 18 Dez (Lusa) - Habituados a enfrentar desafios em qualquer parte do mundo, há portugueses em Macau que abrem novos restaurantes com grande confiança no futuro, apostando mesmo na zona onde no domingo vão decorrer as cerimónias da transferência da administração do território de Portugal para a China.

O nascimento da Região Administrativa Especial de Macau (RAEM), no dia 20, não causa receios e um deles, Manuel Joaquim Pena, acredita que dentro de alguns meses, "com o novo governo, até vai ser melhor do que agora".

O "Manel", como é mais conhecido este beirão de Trancoso, tem há vários anos um restaurante na ilha da Taipa. Nesta semana, junto ao Jardim das Artes, na Zona dos Novos Aterros do Porto Exterior, abriu o "Rei Leão", um investimento de três milhões de patacas (60 mil contos) à sociedade com um empresário chinês.

Manuel Pena, de 45 anos, há 20 em Macau, faz questão de servir aos clientes uma "comida caseira" à moda da sua terra natal. "Faço tudo como a minha mãe faz, só as quantidades é que diferem. É um espectáculo", regozija-se, em declarações à Agência Lusa.

"ó Manel", o seu estabelecimento da Taipa, é um dos mais famosos do território e tem confirmado o sucesso desde que foi inaugurado em 1 de Abril de 1991. "Parece mentira", recorda o dono, visivelmente optimista quanto às perspectivas da sua nova "casa".

Na Taipa, recebeu algumas vezes o governador Rocha Vieira, que optava, geralmente, por comer bacalhau assado com batatas a murro ou frango de churrasco e beber "bom vinho" de Portugal.

No "Rei Leão", vai manter no essencial a mesma ementa. Os grelhados a carvão são uma aposta forte, designadamente os peixes frescos e o entrecosto.

Em termos de decoração, Manuel Pena quis "fazer uma coisa diferente". Logo que sobem ao primeiro andar, por uma escadas em espiral, os clientes encontram uma sala de jantar fora do comum: o piso, todo em vidro, permite olhar um "fundo do mar" com areia fina importada da Tailândia para o efeito.

Abundam os corais, os búzios, os caranguejos, os moluscos e vestígios de antigos naufrágios de embarcações. Em redor, as paredes são pintadas com outros motivos marinhos, surgindo entre as algas tubarões e outros peixes mais pequenos.

"Isto vai dar e eu estou preparado. A maioria dos chineses com quem falo também pensam o mesmo", afirma Manuel Pena.

Ele é casado com uma chinesa, de cujo matrimónio há dois filhos menores: Palmira, de 13 anos, e Luís, de oito. Estudam ambos na Escola Portuguesa e, tal como o pai, falam português, chinês e  inglês.

"Vou ficar em Macau e o meu projecto não vai ficar só por aqui". O sócio chinês, que emprega mais de mil pessoas numa fábrica na Zona Económica Especial chinesa de Zhuhai, tem "muitos contactos" na região da Ásia-Pacífico.

"Por vontade dele, já estaríamos em Hong Kong, Pequim ou na Austrália", admite o antigo militar da Polícia Aérea, que partilha o sonho de ir mais longe no sector da restauração.

Manuel Pena tem espírito de aventura. Aos 11 anos, partiu para Moçambique sozinho, com autorização do pai para se empregar no mato, num estabelecimento próximo de Tete. "Eu era muito aventureiro".

Ao fim de cinco anos, regressou a Portugal. Deu ainda um pulo a França e trabalhou idêntico período em Angola, onde se manteve até 1977, fazendo de tudo um pouco até se fixar em Macau.

Outro veterano dos restaurantes locais é Afonso Carrão Pereira, que nasceu no concelho de Tomar há 54 anos. O seu estabelecimento - o "Afonso III" - fica na Rua Central, que nos anos 60 era a mais movimentada da cidade.

"Se bebes para esquecer, paga antes de beber", adverte um azulejo, colocado no balcão, ao lado de um Zé Povinho que faz o portuguesíssimo manguito e de uma jarra com cravos vermelhos. O pai  era sapateiro e a mãe doméstica. "Um e outro trabalhavam à jorna em terras que não eram nossas", refere.

Afonso teve igualmente a aventura francesa. Cumpriu a tropa na Guiné, onde chegou em 1963, mas antes já dera os primeiros passos como profissional de hotelaria na área de Lisboa.

Chegou a Macau em 1984, "apenas por algum tempo" e para participar, num hotel da Taipa, num festival de gastronomia portuguesa denominado "Abril em Portugal".

Ainda regressou a Portugal. Passado pouco tempo, estava de novo em Macau, onde "dava cartas" num restaurante que não era seu, o "Afonso". O "1999", que fundou mais tarde em Coloane, à sociedade com um austríaco, veio a ser também conhecido, simplesmente, por "Afonso".

Em 1990, abriu o "Afonso III", onde trabalham chineses e filipinos, sempre sob rigorosa supervisão de Afonso Carrão, que zela pela autenticidade da comida portuguesa.

"Azeite, chouriço e vinho vêm de Portugal", garante à Lusa. Carapaus alimados, entrecosto de vaca grelhado, camarão grelhado com salada, favas guisadas com enchidos e carnes de porco, cozido à portuguesa e sopa de couve branca são algumas iguarias que Afonso apresenta diariamente.

Afirma que 70 por cento da clientela é constituída por portugueses e turistas, sendo os restantes de origem chinesa.

O cozinheiro-empresário tem um filho em Macau - Henrique, de oito anos, que nasceu da relação que manteve com uma autóctone e que estuda da Escola Luso-Chinesa - e outro em Portugal, Carlos, de 25 anos, filho do primeiro casamento.

O "esparregado à paialvense" (um tributo à sua aldeia, Paialvo, próximo de Tomar) é uma das especialidades mais apreciadas no restaurante do popular ribatejano.

Nos Novos Aterros do Porto Exterior (NAPE), perto do local da cerimónia da transferência, outros portugueses espreitam a possibilidade de a zona, onde dezenas de prédios de 20 andares estão  praticamente desabitados, garantir bons negócios.

Bares e restaurantes são as actividades preferidas. Dois jovens juristas portugueses investiram nos últimos tempos em bares, que estão entre os primeiros das "Docas", defronte da estátua da  deusa Kun Iam.

O restaurante "Amagau" funciona ali perto há duas semanas.

Luís Cheong, de 38 anos, gastou mais de um milhão de patacas no estabelecimento.

Trabalhava no Palácio do Governador, na Praia Grande, e decidiu abandonar a função pública a troco de uma indemnização, ou "bolada".

Manifesta "confiança no futuro" e diz que, apesar da criação da RAEM, "sempre quis ficar" na terra onde nasceu. Pratos portugueses e macaenses são o "forte" da casa", onde não faltam vinhos da pátria de Camões.

Arroz "chau-chau", arroz "chau-chau" com chouriço português, vários tipos de bacalhau, caldo verde e pratos típicos de Macau como o Minchi, Lacassá e Capela são sabores familiares no "Amagau" (a primitiva designação de Macau).

Além do património arquitectónico e da língua, a gastronomia surge como outra via para a continuidade da cultura de matriz portuguesa no último "reduto" da presença lusa no Extremo Oriente.

Cozinheiros e empresários seguem em frente, em busca do seu "Prestes João".

Talvez alguns nem saibam que coube, também, aos antepassados navegadores um papel decisivo na difusão pelo mundo de muitas das espécies vegetais hoje comuns na alimentação de povos de todos os continentes.

Lusa/Fim