Macau/99: Sucesso de Macau compete àqueles que o vão administrar – Jorge Sampaio
Arquivo Lusa 1999
Macau, 18 Dez (Lusa) - O sucesso da Região Administrativa Especial de Macau "compete agora àqueles que a vão administrar. O trabalho de garantir as condições para esse sucesso está feito", afirmou hoje o Presidente da República, Jorge Sampaio.
Para Jorge Sampaio, a transferência da administração de Macau de Portugal para a China no domingo "não é um capítulo que se fecha para fechar um livro, é um capítulo que se fecha para abrir outros (...), é um novo capítulo que, se houver vontade, é promissor".
O Presidente da República, falando durante um almoço com jornalistas portugueses, deixou, no entanto, a advertência de que eventuais "entorses" que o conceito um país dois sistemas possa vir a sofrer "serão levados ao passivo da administração chinesa e nunca ao da administração portuguesa".
Um país dois sistemas é a obra de engenharia conceptual do falecido patriarca político chinês Deng Xiaoping que Pequim irá fazer presidir à integração de Macau na República Popular como Região Administrativa Especial e que garante o funcionamento do sistema capitalista do território no seio do comunismo chinês.
Jorge Sampaio destacou como mecanismos de garantia do futuro prometido para Macau a aplicação ao território de convenções internacionais sobre direitos individuais e a participação em organizações internacionais, acordadas no Grupo de Ligação Luso-Chinês.
O Presidente da República reiterou a posição de que a transição de Macau foi "exemplar" e salientou a articulação entre os vários órgãos envolvido no processo de transição de Macau, confidenciando ter comentado com Cavaco Silva, a bordo do avião que transportou sexta-feira a comitiva oficial portuguesa às cerimónias da transferência de poderes, que Macau "é um dos casos raros de constante articulação e coordenação institucionais".
Jorge Sampaio comentou o paralelismo meteorológico da chuva nas cerimónias da transferência da administração de Macau e da soberania de Hong Kong em 30 de Junho de 1997 referindo que "é a única semelhança".
"A presença portuguesa em Macau nada teve a ver com a presença conquistada com canhoneiras no território ao lado", disse o PR, que manifestou "orgulho no que os portugueses, a administração portuguesa fez em Macau" e no "sentimento de que ao fim de mais de 400 não há acrimónia" entre portugueses e chineses na sociedade de Macau.
O Chefe de Estado comentou a sua saída do território imediatamente após a cerimónia oficial de transferência da administração referindo que "finda a cerimónia, a festa é chinesa e não teria sentido o Presidente português estar presente numa celebração que é da China".
O estacionamento de uma guarnição militar chinesa em Macau depois da transferência de poderes - contra a oposição formal de Portugal - é para Jorge Sampaio "uma história muito comprida que não vou contar".
Mas a entrada em Macau das tropas do Exército Popular de Libertação apenas às 12:00 de segunda-feira, muitas horas depois de os principais representantes portugueses já terem abandonado o território "prova que a China entende bem o que escreveu na Declaração conjunta e demonstra o bom relacionamento entre os dois países".
Jorge Sampaio afirmou ainda não ter "nem nostalgia nem arrependimentos sobre a actuação de Portugal em Macau" e defendeu que "não se deve fazer uma retrospectiva crítica da actuação de Portugal no processo de descolonização, e nas questões de Timor e Macau", mas acusou a ditadura de ter sido "incapaz de perceber os ventos da história e de que havia diálogos a estabelecer".
Jorge Sampaio referiu não conseguir saber ainda qual vai ser a sua "reacção íntima" no domingo, no momento do arriar da bandeira que encerrará formalmente 442 anos de administração portuguesa em Macau, mas adiantou que o ambiente que deve prevalecer na transferência de poderes é o de festa. "Comovidos ou não, saímos [Portugal] de Macau de cabeça levantada", concluiu o Presidente da República.
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