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Macau/99: Boaventura Santos moderadamente pessimista sobre futuro do legado português

Arquivo Lusa 1999

Coimbra, 17 Dez (Lusa) - O sociólogo Boaventura de Sousa Santos confessou-se hoje "moderadamente pessimista" em relação à permanência da cultura portuguesa em Macau, mas vê a região que domingo regressa à administração chinesa com um interesse renovado.

"Macau começa agora", sublinhou, ressalvando, contudo, que os 400 anos de permanência dos portugueses no território criaram expectativas que ficaram por cumprir.

"À luz dessas expectativas, podíamos deixar muito mais do que vamos deixar", frisou o co-autor (com a socióloga Conceição Gomes)de um estudo sócio-jurídico sobre o território, intitulado "Macau-O Pequeníssimo Dragão".

Para o director do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, Portugal fracassou em Macau em três áreas fundamentais: nos domínios político, da justiça e da língua.

Em declarações à Agência Lusa, Boaventura de Sousa Santos explicou o insucesso de Portugal na implantação em Macau de um sistema político com um conteúdo democrático com o receio dos responsáveis portugueses de prejudicar a relação com a China.

"Portugal não tirou o devido partido dos movimentos chineses que, no território, demonstraram hostilidade em relação a Pequim e distanciou-se deles para não pôr em causa as relações de amizade com a China", afirmou Boaventura de Sousa Santos, para quem uma maior firmeza dos responsáveis portugueses teria criado o espaço para implantar em Macau "instituições mais democráticas".

Na sua perspectiva, o fracasso na implantação de um sistema político com um conteúdo democrático deveu-se também ao facto deterem sido figuras militares a assegurar a transição.

"Foi um erro manter na governação o general Rocha Vieira, devia ter sido escolhida uma entidade civil, como Maria de Lourdes Pintasilgo", defendeu.

No campo da justiça, o professor universitário considera que a independência dos tribunais não está garantida e que os direitos,liberdades e garantias fundamentais dos cidadãos se mantém num terreno "ambíguo e pouco seguro".

"Mantém-se tudo na dependência dos bons ofícios da China", país que caracterizou como uma "caixa de Pandora".

No domínio da língua, "o futuro do português não é brilhante", pois, à semelhança do que se verificou nas antigas colónias portuguesas, "Portugal negligenciou a formação de elites locais que deviam ter sido treinadas em português".

Apesar do desencanto em relação à sobrevivência da cultura portuguesa em Macau, Boaventura de Sousa Santos afirmou à Lusa que o seu interesse pelo território se renova a partir de segunda-feira.

"Agora é que vamos ver que contactos culturais, políticos,económicos e sociais se vão verificar", realçou, chamando a atenção para a "responsabilidade histórica" que Portugal tem nesta matéria.

Lusa/Fim