Macau/99: Transferência da administração significa bom negócio para “homem das castanhas”
Arquivo Lusa 1999
*** Por Casimiro Simões, da Agência Lusa ***
Macau, 17 Dez (Lusa) - A transformação político-administrativa de Macau com a passagem da administração para a China preocupa pouco Chi Veng, que vende castanhas assadas na praça do Leal Senado, no centro da cidade.
Clientes não faltam para os cartuchos de castanhas ainda a escaldar e o comerciante chinês espera ainda melhor negócio com a movimentação de pessoas que chegam para testemunhar o acontecimento histórico da transferência de poderes, para passar o Natal ou a entrada no ano 2000.
As ruas de Macau estão decoradas com iluminações, árvores de Natal, presépios, bandeiras de Portugal e da República Popular da China e uma grande variedade iconográfica que visa mobilizar para os festejos os mais pacatos cidadãos.
Os residentes locais, logo após o fim-de-semana, vão gozar ainda mais três dias de feriado, decretados no âmbito das celebrações do "retorno de Macau à pátria".
Por cinco, 10 ou 20 patacas, os fregueses de Chao Chi Veng podem comer porções de castanhas, que não levam sal - antes açúcar, que as torna mais atraentes aos olhos de quem passa - nem são estaladiças, como as que os portugueses comem nas ruas de Lisboa, Porto, Coimbra ou noutra qualquer cidade.
As temperaturas chegam aos 22 graus centígrados e quase não choveu nas últimas semanas. Mas é Inverno em Macau, pelo menos no Largo do Leal Senado, onde sobe ao ar um cheirinho de S. Martinho.
O vapor das castanhas assadas impregna as roupas que se vendem ao preço da chuva na Rua Sul do Mercado de S. Domingos e concorre com os aromas da sopa de fitas, os "olhos de dragão" e outras frutas exóticas. E com os "hamburgers", que logo em frente têm grande procura.
Uma espécie de betoneira, cuja patente Chi Veng "regista" em nome de Cheng, seu pai, caldeia castanhas importadas do norte da China com areia grossa e algum açúcar branco, enquanto uma chama forte alimentada a querosene, aquece o tambor do engenho.
O posto de venda, oficialmente designado "Cheng Kei", é constituído por uma estrutura metálica que suporta, à altura de uma banca de cozinha, a bizarra fornalha de assar castanhas, inspirada na máquina de amassar betão para obras.
Á frente do negócio desde que o pai passou a preocupar-se apenas com as tarefas da importação, Chi Veng não tem mãos a medir a aviar clientes.
Mais ou menos sôfregos, os apreciadores do fruto do castanheiro, na maioria dos casos, nunca terão ouvido falar em magustos ou "castanhadas".
Chegam geralmente apressados, deixam o dinheiro e partem felizes.
Em horas de melhor sorte, as moedas acumulam-se numa ou duas taças de plástico e as notas, que são emitidas em simultâneo pelo Banco da China e pelo Banco Nacional Ultramarino, adejam sobre a mesa, empurradas pela brisa que corre ao cair da tarde.
Chi Veng confessa à Agência Lusa que a sua empresa vai de vento em popa, embora mantendo confidenciais as quantidades de castanha que comercializa no Outono e no Inverno.
"Tudo depende das condições do tempo". Se chove ou faz frio, as pessoas refugiam-se em casa e passam menos no Largo do Leal Senado, uma zona do centro da cidade reservada aos peões.
O vendedor conta que muitas vezes há clientes de Portugal que lhe falam da tradição lusa de comer castanhas e das diferentes maneiras de as cozinhar. Chi Veng acha graça a essa curiosidade e disponibiliza-se sempre para esclarecer.
Seu pai chegou a ter outros concorrentes, ali defronte, junto à porta da Santa Casa da Misericórdia. Mas as leis do mercado, impiedosas, ditaram o seu afastamento. Cheng sobreviveu sozinho e não parou de crescer.
O local é um dos melhores de Macau para o comércio. Fica junto ao Mercado de S. Domingos, hoje um edifício moderno e com vários pisos, onde o peixe, rãs, tartarugas e cobras são mortos e esfolados à vista das pessoas, como prova de qualidade.
A areia que se mistura com as castanhas e o açúcar, dentro da caldeira, serve para acelerar a assadura, já que o movimento de rotação permite absorver e transmitir mais calor aos frutos, que este ano raramente são bichosos.
"O sal atrai mais o fogo e queima as castanhas", diz Chao Chi Veng, ao mesmo tempo que, num reflexo profissional, livra o rosto de uma que rebenta. Não perde tempo com o cuidado de as golpear antes.
O jovem explica que o açúcar dá brilho ao produto, um pouco à semelhança da fruta calibrada que se encontra cada vez mais à venda em todo o mundo.
Em Portugal, é a invernia que convida pequenos e grandes, nas aldeias e cidades, a comer castanhas assadas. Ainda assim, toda a gente agradece uma tarde soalheira de S. Martinho. Em Macau, o ambiente primaveril deste Dezembro ajuda ao negócio da "Cheng Kei".
Aqui o vinho é caro e de jeropiga e água-pé nem sinal. Restam os chás para aconchegar o coração e o estômago. Há-os de todas as qualidades, sabores e proveniências e os habitantes do território, a qualquer hora do dia, fazem com as chávenas brindes à amizade e ao futuro da Região Administrativa Especial de Macau, que nasce dia 20.
Em Macau, e mesmo do lado de lá das Portas do Cerco na China continental, designadamente em Zhuhai outros chineses fazem-se à vida nas ruas com imitações da assadeira da Rua Sul do Mercado de S. Domingos.
Chi Veng afixou em local bem visível o documento com que o Leal Senado, através dos Serviços de Inspecção e Sanidade - Divisão de Vendilhões (sic), legaliza o comércio de castanhas "quentes e boas".
São mais doces e difíceis de descascar do que as portuguesas.
Ancestrais conhecimentos das civilizações orientais aconselham moderação no seu consumo. Pessoas de saúde mais débil devem comer sete no máximo.
Se os fregueses da "Cheng Kei" levassem à risca tal teoria, ao dono só restaria fechar a loja. Chi Veng sabe ser caixeiro, é simpático e despachado.
Na Primavera e no Verão, não vende gelados ou refrescos como os seus colegas portugueses. Recusa ficar à mercê do bom ou mau humor de S. Pedro. E, na época do defeso, é ourives e joalheiro.
Lusa/Fim