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Macau/Japão: Rocha Vieira quer reactivar relações com Nagasáqui

Arquivo Lusa 1999

*** Por Gonçalo César de Sá, da Agência Lusa ***

Nagasáqui, Japão, 28 Jul (Lusa) - O jesuíta português Luís Fróis, que viveu e morreu na cidade japonesa de Nagasáqui, no final do século XVI, foi hoje homenageado pelo Governador de Macau que colocou um ramo flores numa lapida erguida junto do Museu dos 26 Mártires.

Rocha Vieira que visita oficialmente Nagasáqui, uma cidade de um milhão e meio de habitantes, fundada pelos portugueses em 1571 e o principal entreposto comercial do Japão no século XVI recordou na altura a importância do jesuíta Luís Fróis "que deixou uma importante obra sobre a história do Japão no que são consideradas as primeiras referências detalhadas da civilização nipónica".

Durante um dia em que manteve contactos com as autoridades da prefeitura e do município de Nagasáqui, Rocha Vieira traçou sempre o paralelismo entre Macau e Nagasáqui recordando que as duas cidades foram fundadas na mesma época, tiveram a mesma vocação de entreposto comercial e ponto de encontro entre culturas diferentes".

Numa recepção oferecida pelo presidente da Sociedade Luso-Nipónica, o cônsul honorário de Portugal e banqueiro, Genji Nozaki, o governador de Macau, Rocha Vieira foi mais longe e disse que "Nagasáqui e Macau são cidades irmãs e complementares que devem continuar, no futuro, a estreitar relações de modo a fazer perdurar uma história comum que lhes dá uma identidade própria".

"Em Macau, a 19 de Dezembro de 1999 apenas vai mudar a administração mantendo-se no entanto o mesmo sistema judicial, politico, as liberdades actuais e o estilo de vida o que dá a garantia de uma continuada e reforçada relação com Nagasáqui", assegurou ainda o governador Rocha Vieira.

O governador de Macau verificou hoje ao longo de uma visita à cidade que, como em Macau, também Nagasáqui cheira a história a qual teve em Macau um parceiro privilegiado ao longo de quase um século.

A poucos dias de mais um aniversário da destruição de Nagasáqui pela bomba atómica, no dia 09 de Agosto de 1945, Rocha Vieira visitou o museu da bomba, esteve no local do seu epicentro no  Parque da Paz, onde se deixou fotografar com uma série de crianças junto à gigantesca estátua da paz e afirmou estar "emocionado com o que viu pelo significado que tem para uma cidade mártir que hoje recuperou do trauma do holocausto nuclear".

Nagasáqui, onde os sinos ao fim da tarde recordam uma cidade portuguesa, é o berço do cristianismo no Japão e possui hoje a maior comunidade de católicos de todo o país, com dezenas de igrejas e colégios geridos por religiosos.

Um pouco por toda a parte existem marcas da presença portuguesa dos séculos XVI e XVII mas talvez a mais significativa é a colina dos mártires, onde está instalado o Museu dos 26 mártires,  precisamente no local onde em 1597 o senhor feudal Toyotomi Hideyoshi, os mandou executar sob o pretexto de que se preparavam para tomar o Japão.

O museu dos mártires reflecte um pouco o que foi a presença católica e dos portugueses no Japão e que o seu curador, o jesuíta Diego Yuuki, sintetiza quando afirma que os japoneses olham para  Portugal "como um pai que criou uma família".

"Portugal é o responsável pela cultura da cidade de Nagasáqui, onde no século XVI o português chegou a ser o único dialecto em uso na zona. Os portugueses construíram misericórdias, colégios,  seminários, igrejas, escolas, hospitais e introduziram a culinária, o vestuário, a música, a pintura a impressão e hábitos até então desconhecidos", recorda Diego Yuuki.

O Museu dos Mártires, que foi visitado pelo Papa João Paulo II, apresenta a maior colecção de vestígios do que foi a presença católica e religiosa no Japão podendo ser considerado "a mais realista lição do que foi o século português".

Os religiosos e os comerciantes portugueses, vindos de Macau, não obstante a execução de 1597 continuaram a comerciar com o Japão mas agora confinados a uma pequena ilha de nome Dejima concedida pelas autoridades japonesas determinadas em perseguir os católicos.

Depois do massacre de Shimabara, junto de Nagasaki, em 1637, quando o xógum Hidetada Tokugawa matou 30 mil católicos com o apoio dos holandeses desejosos de poder substituir os portugueses nos negócios com o Japão, os católicos ainda vivos passaram à clandestinidade assim se mantendo até ao início do século XX, quando são descobertos na igreja de Oura em Nagasáqui por padres franceses.

Ainda em 1637 o xógum determinou que os japoneses não podem abandonar o país e dois anos mais tarde proíbe o comércio com os portugueses não obstante uma última tentativa da parte de Portugal, em 1640, quando a nau "Madre de Deus" vinda de Macau e capitaneada por Luiz Paes Pacheco tenta retomar as relações comerciais sem sucesso uma vez que foi afundada e os seus tripulantes mortos com excepção de alguns que puderam regressar a Macau para contar o que se passara.

Três séculos e meio depois da expulsão dos portugueses as palavras do vocabulário das relações luso-nipónicas mudaram profundamente e hoje são a cooperação, a amizade, o entendimento, a  complementaridade e o respeito pelo passado comum.

Rocha Vieira na sua visita a Nagasáqui pretendeu reactivar o capital de simpatia que Portugal e Macau possuem no sul do Japão e dizer que as duas cidades podem ser complementares, e que podem trabalhar em conjunto nas áreas culturais, comerciais e de investimento uma vez que se localizam em importantes pólos de desenvolvimento regional possuindo infraestruturas e serviços de grande eficácia e qualidade.

Edificada em sete colinas, junto ao mar e com um clima temperado, e com uma rede de eléctricos que lembra uma cidade portuguesa, Nagasáqui é considerada pelos japoneses a Lisboa do Oriente e nenhum dos seus residentes esquece que "Portugaru" faz parte da sua história porque trouxe o pão-de-ló (a que chamam castela), a teppo (espingarda),o pan (pão), o kop (copo), o konfeito  (confeito), o bisuketto (biscoito), o tabaki (tabaco) e a tempura (um tipo de peixinhos da horta cujo nome provem das tempuras religiosas, na Páscoa, quando os religiosos não comiam carne).

Como que a dar continuidade a esta relação, o empresário de Nagasáqui Nobuyuki Kusumi, gerente de uma fábrica de chocolates, disse à agência Lusa que vai inaugurar em Abril de 2000, uma  pastelaria especializada não só em pão-de-ló, mas também em queijadas de Sintra e pastéis de Belém no que pensa "vai ser um sucesso".

"Tive apoio da Escola de Turismo e Hotelaria do Estoril e do ICEP e hoje está em curso todo o projecto que estará concretizado nos primeiros do próximo ano", acrescentou Nobuyuki Kusumi, ao dar a conhecer hoje as suas intenções ao embaixador de Portugal no Japão, Gervásio Leite.

"Os novos conceitos, costumes e ideias introduzidos pelos portugueses ao longo de um século são os percursores do espírito japonês de hoje em dia", defendia ainda antes da sua morte o escritor  Shusako Endo que publicou dezenas de livros sobre o século cristão japonês.

Lusa/Fim