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AR/Macau: Durão Barroso ataca política externa do governo

Arquivo Lusa 1999

Lisboa, 14 Dez (Lusa) - O presidente do PSD, Durão Barroso, aproveitou hoje a sua intervenção na sessão solene da Assembleia da República sobre a transferência de Macau para a China para fazer duras críticas à política externa do actual governo socialista.

PS e PSD convergiram no elogio ao processo de transição de Macau para soberania chinesa, mas o líder social-democrata, fugindo ao que é habitual neste tipo de sessões solenes no Parlamento, virou-se contra a política do executivo liderado por António Guterres.

"O baixar da bandeira portuguesa nesse território coloca questões que não devemos iludir", apontou Durão Barroso, lembrando que Portugal "perde assim um importante ponto de apoio à sua presença na Ásia".

Para evitar essa perda de importância de Portugal para a China e todo o sudeste asiático seria necessário "traduzir na prática as possibilidades abertas pela declaração conjunta", realçou o presidente do PSD.

Ora, segundo Durão Barroso, existe o risco de a política externa portuguesa "se ver cada vez mais diluída numa amálgama político-diplomática europeia".

"Portugal não pode aceitar aquilo que certos indícios assinalam estar a ocorrer e que é uma progressiva desvalorização internacional do país", acrescentou o antigo ministro dos Negócios Estrangeiros de Cavaco Silva.

O eventual cancelamento da Cimeira União Europeia/África, prevista para Abril próximo, durante a presidência portuguesa dos Quinze, não escapou às críticas do presidente do PSD.

"Independentemente das razões ora invocadas não se compreende a anunciada impossibilidade de concretizar a primeira Cimeira Europa/África no decurso da nossa presidência da UE", apontou o líder social-democrata.

Durão Barroso justificou falar no tema pelo facto de ser "tantas vezes proclamada a vocação especifica portuguesa no continente africano".

"Não é assim que Portugal responde aos novos desafios de um mundo cada vez mais globalizado", adiantou.

"Preocupa-me esta desvalorização internacional de Portugal, que alguns episódicos sucessos de fachada ou exercícios de relações públicas procuram camuflar", afirmou Durão do púlpito, com o primeiro-ministro mesmo à sua frente, na bancada do Governo.

"Puxando dos galões" por ter sido ministro dos Negócios Estrangeiros, disse que em política externa "não se pode ser ligeiro ou superficial" dado que tal atitude "empenha a própria credibilidade de Portugal".

"A afirmação de Portugal no mundo requer uma visão de longo prazo que não se compadece com as urgências de imediatismo ou de solicitações mediáticas mais caseiras", realçou o deputado social-democrata.

Assim, no momento em que cessa a administração portuguesa de Macau o líder do PSD considera essencial que Portugal "não se demita da sua vocação extra-europeia".

Falando de Macau, Durão Barroso garantiu que Portugal pode orgulhar-se do processo de transição do território para a República Popular da China, que foi feito com "rigor e dignidade".

"De algum modo, o êxito da transição que no próximo dia 20 se consumará possibilita a Portugal reconciliar-se consigo próprio. Reencontrar-se com a sua história. Exorcizar alguns fantasmas que há duas décadas e meia permaneciam na nossa memória colectiva", referiu.

Barroso teve ainda referências elogiosas no processo para o general Rocha Vieira, actual governador de Macau, para Cavaco Silva, ex-primeiro-ministro, e para o actual Chefe de Estado, Jorge Sampaio, por não ter substituído o governador.

Pela parte do PS, o deputado Alberto Costa realçou o "exercício singular de cooperação" que significou a negociação e aplicação da declaração conjunta luso-chinesa.

Quanto ao trabalho feito pela administração portuguesa no território, sublinhou que actualmente Macau "é a quinta cidade de toda a Ásia com maior investimento em educação por pessoa".

Evitando referências saudosistas, Costa, ex-director dos serviços de justiça no território, afirmou que Macau "não é o nome de um imenso adeus" mas antes "o nome de uma nova partida e de uma oportunidade para um novo ciclo de cooperação e proximidade com novos fluxos e novos meios".

Lusa/Fim