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Macau/99: Um “caso exemplar de desenvolvimento”, segundo Garcia Leandro

Arquivo Lusa 1999

Lisboa, 11 Dez (Lusa) - O primeiro Governador de Macau no pós-25 de Abril, Garcia Leandro, considera que a futura região Administrativa Especial "é um caso exemplar de como em 25 anos se pode desenvolver um território" subdesenvolvido.

O isolamento das ilhas - Taipa e Coloane - em relação a Macau era um exemplo do atraso do território em 1974, acrescentou à Agência Lusa o general Garcia Leandro.

O 25 de Abril permitiu a Macau transformar-se numa "cidade-Estado com a autonomia resultante da capacidade de produzir receitas" e o território deixou de receber subsídios de Lisboa a partir de 1977, lembrou.

José Eduardo Martinho Garcia Leandro, 59 anos, era major do Exército graduado em coronel quando governou Macau entre 13 de Novembro de 1974 e 01 de Fevereiro de 1979.

"A linha política seguida desde então" e pelos sucessores "foi sempre a mesma: a do desenvolvimento", frisou o general.

Agora, realçou, "dá-se à China" um território com "infraestruturas, capacidade de prestação de serviços e inserção económica na região da Bacia do Rio das Pérolas".

Macau "corresponde ao que ambicionei e foi mesmo mais longe: nos resultados da gestão do território, na renovação do tecido urbano, na capacidade de intervenção do Governo".

Garcia Leandro foi com os ventos da Revolução de Abril para Macau, onde então ainda chegavam os ventos da Revolução Cultural chinesa e as consequências da morte dos líderes Mao Tse-Tung e Chou En-Lai e da acção do Bando dos Quatro.

"Não havia grandes indicações" de Pequim - com quem Lisboa só restabeleceu relações diplomáticas na década de 80 - e, por outro lado, os dirigentes chineses "ficaram em suspenso sobre quais as consequências em Macau" dos acontecimentos de Abril de 1974 em Portugal.

Como "todos queriam estabilidade" e em Portugal "havia a ideia de não ter problemas com Macau", como acontecia em África, foi adoptada uma política reformista "apoiada pelo Conselho da Revolução", disse.

Isso ajudou a resolver em meados de 1975 a "confrontação de poder" vivida no território: "não se fica como se estava até então, nem se importa o modelo revolucionário" de Portugal, assumiu Garcia Leandro.

Mas para o sucesso da via reformista era preciso vencer um dilema: havia autonomia e capacidade de decisão, não existiam quadros para dar resposta às iniciativas do Governo.

Daí a política de "macaízação de quadros" então encetada, que pecou mais tarde por não se ter dado "o passo seguinte" de aceitar chineses na administração do território, lamentou.

Sobre as relações com a China, Garcia Leandro - que foi duas vezes a Pequim em visitas de carácter particular - disse ter sido "o relacionamento diário do Governo de Macau" de então que "criou confiança" nos dirigentes de Pequim.

Garcia Leandro foi também o último Comandante-Chefe das Forças Armadas em Macau: por ausência de ameaça externa era injustificada a presença de tropas portuguesas no território, pelo que estas foram substituídas a 31 de Dezembro de 1975 por forças de segurança.

Quanto à língua, e mesmo actuando numa lógica de longo prazo por então desconhecer que Macau seria entregue à China, o general teve consciência das limitações da sua defesa.

A população é constituída por 97 por cento de chineses, que têm a língua-mãe e o Inglês como línguas dominantes.

"Macau, em termos culturais, não é África ou o Brasil", observou. Se "a língua portuguesa estiolou em Goa e Malaca, é natural que venha a acontecer o mesmo" no território, admitiu Garcia Leandro.

Lusa/Fim