Macau/99: Uma História muito diferente de Hong Kong
Arquivo Lusa 1999
+ + + Por António Caeiro, da Agência Lusa + + +
Pequim, 10 Dez (Lusa) - Na única visita que fez à China, em 1992, o último governador de Hong Kong, Chris Patten, não chegou a encontrar-se com o presidente ou o primeiro-ministro chineses e no ano seguinte, em directo pela televisão, um alto funcionário de Pequim qualificou-o como "criminoso por mil anos".
O último governador de Macau, Rocha Vieira, foi recebido quatro vezes em Pequim, sempre ao mais alto nível, e na última visita, há menos de um mês, o presidente Jiang Zemin elogiou a sua "sensibilidade" e "visão estratégica".
Macau é visto na China como a "primeira parcela do território chinês ocupada por estrangeiros" mas, ao contrário do que aconteceu em Hong Kong, o seu "regresso à Pátria" decorreu num clima de "amigável cooperação".
Mesmo após a sangrenta repressão militar do movimento pró-democracia da Praça Tiananmen, em Junho de 1989, o governo português nunca interrompeu o "diálogo" com Pequim e, oficialmente, as relações políticas luso-chinesas foram sempre consideradas "excelentes".
Desde a assinatura da "Declaração Conjunta Luso-Chinesa", em 1987, os negociadores dos dois países evitaram discutir em público as suas divergências e ambos os governos encaram hoje o processo de Macau como "um bom exemplo de solução de questões legadas pela História".
Antes de Pequim reassumir a soberania de Hong Kong em 1997, nenhum presidente da China visitou a Grã-Bretanha e o líder chinês mais associado aos trágicos acontecimentos de 1989, o antigo primeiro-ministro Li Peng, nunca foi convidado a deslocar-se a Londres.
Li Peng visitou Portugal em 1992 e no ano seguinte - quando ainda estavam suspensas as visitas a nível de chefes de Estado entre a China e os países da União Europeia - o presidente Jiang Zemin efectuou uma escala de um dia em Lisboa.
A longa presença portuguesa em Macau, iniciada no século XVI, também não suscita o ressentimento causado pela ocupação britânica de Hong Kong.
"Ao contrário do assalto armado dos britânicos a Hong Kong, os portugueses recorreram apenas à fraude e ao suborno para dominarem Macau", disse a agência noticiosa oficial chinesa num "pedagógico" artigo sobre a História de Macau.
Hong Kong foi ocupada pela marinha britânica durante a Guerra do Ópio (1880-82), um episódio que para os historiadores comunistas chineses assinala a "transformação da China numa sociedade semi-colonial".
Segundo uma enciclopédia publicada o mês passado em Pequim, mercadores portugueses foram "autorizados" a construir um abrigo em Macau, em 1553, e a partir de então começaram a "ocupar gradualmente" o território.
Mesmo assim, a propaganda comunista chinesa encara os dois casos como "um fenómeno colonialista" e "uma humilhação nacional".
"O regresso de Macau à Pátria significa que o povo chinês varreu a humilhação nacional e Macau entrou numa nova época histórica", proclama uma das dez palavras de ordem aprovadas pelo governo chinês para os festejos do próximo dia 20.
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