Macau/99: Uma “nova página” nas relações luso-chinesas – dúvidas e convicções
Arquivo Lusa 1999
+ + + Por António Caeiro, da Agência Lusa + + +
Pequim, 08 Dez (Lusa) - As relações luso-chinesas vão melhorar depois de a administração de Macau passar para a China ou haverá, pelo contrário, um gradual afastamento entre os dois países? Resolvida "a questão de Macau", a China encarará Portugal como um país igual a todos os outros ou a singularidade daquele território será sempre uma "mais-valia"?
As dúvidas não ficarão esclarecidas na cerimónia de transferência de poderes, mas, a avaliar pela evolução das relações sino-britânicas depois de Pequim ter reassumido a soberania de Hong Kong, em 1997, os contactos entre Portugal e a China poderão também ganhar "uma nova vida".
"Portugal e China tiveram de resolver em conjunto problemas concretos, o que significa que criaram entre si relações de confiança e laços institucionais para tratar de muitas outras coisas", disse em Outubro passado em Pequim o ministro português da Ciência e Tecnologia.
Mariano Gago foi o último ministro português a visitar a China antes da transferência de poderes em Macau.
Na sua opinião, a transição de Macau, minuciosamente preparada ao longo de doze anos, "aproximou" os dois países.
"Nunca as nossas relações foram tão boas e eficazes. Estou convencido de que a transferência da administração de Macau será um passo significativo para melhorar e desenvolver essas relações", disse também Mariano Gago.
Em 1998, o primeiro-ministro português, António Guterres, qualificou a China como "um parceiro estratégico fundamental" e afirmou que Portugal estava pronto a "abrir um novo ciclo" no seu secular relacionamento com aquele país.
"Queremos manter e incentivar relações modernas com a China", disse o ministro dos Negócios Estrangeiros, Jaime Gama, ao inaugurar a nova embaixada de Portugal em Pequim, em Maio passado.
Portugal era o único membro da União Europeia cuja embaixada na China estava instalada num edifício de escritórios do Ministério chinês dos Negócios Estrangeiros, juntamente com as chancelarias de Angola, Eritreia, Moldávia e mais de uma dezena de outros países.
"Temos agora uma base para fortalecer e intensificar as relações com a China, em todos os domínios", comentou na altura o embaixador português na China, Pedro Catarino.
Desde a assinatura da Declaração Conjunta Luso-Chinesa, em 1987, todos os governos portugueses têm defendido que as relações de Portugal com a China "não se esgotam na questão de Macau".
A "dinamização" da cooperação económica bilateral, considerada muito aquém das "excelentes relações políticas" entre os dois países, passou mesmo a ocupar lugar de destaque na agenda dos primeiros-ministros e presidentes de Portugal que entretanto visitaram a China: Cavaco Silva (1994), Mário Soares (1995), Jorge Sampaio (1997) e António Guterres (1998).
Para tentar aproveitar as oportunidades oferecidas pelo maior mercado do mundo, o ICEP abriu uma delegação em Pequim, em 1994, e dois anos depois os dois governos decidiram institucionalizar um sistema de consultas políticas regulares entre os respectivos ministérios dos Negócios Estrangeiros.
Em Pequim e Lisboa, a transferência de poderes em Macau é oficialmente vista sem dramatismos e ambos os governos consideram aquele momento como "uma nova página".
Mas como disse também o embaixador português em Pequim, "Macau há-de pairar permanentemente nas relações entre Portugal e a China".
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