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Macau/99: Política económica será de “evolução na continuidade”

Arquivo Lusa 1999

+ + + Por Fernando Correia da agência Lusa + + +

Macau, 05 Dez (Lusa) - A passagem da administração de Macau de Portugal para a China, a 19 de Dezembro, representará para a equipa liderada por Edmund Ho Hau Wah uma "evolução na continuidade" em termos económicos, atendendo à dependência das receitas do contrato de jogos.

Sem grande margem de manobra, os responsáveis da futura Região Administrativa Especial de Macau (RAEM) não se esqueceram de advertira opinião pública de que "para já" tudo vai ficar na mesma, dependendo a eventual renegociação do contrato de jogos de estudos que irão ser efectuados.

O futuro chefe do executivo anunciou que nenhum dos grandes contratos de concessão será imediatamente revisto. Também aqui há necessidade de fazer estudos prévios, para que uma intervenção demasiado apressada não ponha em risco equilíbrios delicados.

Macau padece de disfunções estruturais.

Cerca de 60 por cento das receitas fiscais da administração são provenientes da cobrança de uma percentagem das receitas brutas da exploração dos casinos. A concessionária destes, a STDM, é o maior empregador privado do território, com mais de 10 mil pessoas na sua folha de pagamentos.

As exportações do território estão concentradas em cerca de 84 por cento nos têxteis e vestuário e os mercados para este tipo de produtos limitam-se a praticamente dois - Estados Unidos da América e União Europeia - que absorvem 77 por cento do total exportado.

Além disso, a "febre" da construção civil, que teve o seu período de ouro em 1992 quando o Produto Interno Bruto (PIB) do território cresceu 28,20 por cento em termos nominais e 13,30 por cento em termos reais, acabou por ter reflexos bastante negativos, pois o resultado foi a existência, ainda hoje, de cerca de 50 mil fogos devolutos.

"Um conjunto de circunstâncias fez com que a economia de Macau tenha entrado em queda. Mas o factor mais importante foi, sem margem para dúvida, a construção excessiva de edifícios sem que, à partida,se vislumbrasse um mercado imobiliário deficitário", afirmou um economista contactado pela agência Lusa.

Para este economista, além de o excesso de construção ter criado situações de crédito malparado na banca, deixou uma situação complicada para o futuro executivo.

"Já foi avançada a sugestão de que, a prazo, a população de Macau deveria duplicar. Mas, embora essas pessoas adicionais possam vir a ocupar as casas actualmente devolutas, o território não tem emprego para lhes dar. Basta recordar que a taxa de desemprego se encontra actualmente em 6,9 por cento da população activa", acentuou.

Macau viu a sua economia começar a entrar em contracção em 1996 (quando o Produto Interno Bruto teve uma quebra real de 0,50 porcento). Em 1997, ano em que a maior parte dos economistas viu as suas previsões ruir clamorosamente com o eclodir da crise asiática, o crescimento nominal do PIB foi positivo mas o real foi negativo em 0,10 por cento.

No ano seguinte, o PIB de Macau caiu 4,00 por cento em termos reais e 6,80 por cento em termos nominais e a previsão para este ano de passagem de administração aponta para menos 5,00 por cento real e 8,00 por cento nominal.

A crise está igualmente a criar em Macau um processo desinflacionista que, se interessante para quem tem depósitos bancários (com a taxa de inflação a ser adicionada à taxa para as operações passivas), é particularmente preocupante para as empresas,pois tem por efeito imediato a depreciação dos activos.

Concluída a transferência de administração, ter-se-à esgotado o seu contributo para o PIB do território, resultante das diversa estruturas que foi necessário construir ou adaptar para que as cerimónias possam ter a dignidade devida bem como dos "inputs" em termos turísticos e comerciais.

A partir de dia 20, a equipa de Edmund Ho Hau Wah terá ainda outro problema complicado que será o de estabelecer um diálogo com o Governo central de Pequim para se resolver, de uma vez por todas, a sorte das empresas chinesas no território, tecnicamente falidas e com dívidas à banca local.

O Banco da China, no seu mais recente relatório, alertava precisamente para a necessidade urgente da resolução desse problema.

Que futuro então para Macau e que papel pode este pequeno território desempenhar na região em que se insere?

Afastada a ideia de uma base industrial diversificada, ideia perseguida por alguns governadores - mas sem grande sucesso, devido à concorrência em termos salariais da China e de outros países da região -, a tónica centrou-se nos últimos anos da administração portuguesa na constituição de uma sociedade de serviços.

"Embora a ideia seja boa - e seja, aparentemente, a única que dá viabilidade a Macau enquanto Região Administrativa Especial com uma identidade própria -, uma sociedade de serviços não surge apenas porque a incidência fiscal sobre as empresas e sobre as pessoas é particularmente favorável", frisou à agência Lusa um analista local.

Para este analista é preciso que a administração liderada por Edmund Ho reveja o esquema de funcionamento dos serviços públicos,cujos trabalhadores recebem remunerações bem acima da média do sector privado, e que não exista a tentação "nacionalista" ou demagoga de impor o cantonês ou mesmo o mandarim, dialecto e língua apenas falados por chineses.

"Se nada disto for feito, então Macau perderá a sua identidade e a melhor solução será a sua integração, numa espécie de 'joint-venture', com a região económica especial de Zhuhai, servindo o território uma população chinesa apenas enquanto plataforma financeira", disse a fonte contactada pela agência Lusa.

A mesma fonte citou, à guisa de exemplo, a indústria hoteleira do território, em que, com o afastamento de muitos dos funcionários filipinos e a sua substituição por trabalhadores locais, a comunicação se tornou mais difícil.

"O mesmo se passa com os serviços de saúde, em que alguns dos médicos, vindos de Xangai, apenas se conseguem expressar em mandarim", disse a fonte, para adiantar que sem uma língua de entendimento a projectada sociedade de serviços não terá viabilidade em Macau.

Lusa/Fim