icon-ham
haitong

Macau/99: Uma ponte entre o sul da China e a Europa

Arquivo Lusa 1999

+ + + Por Casimiro Simões, da Agência Lusa + + +

Macau, 06 Dez (Lusa ) - Macau tem todas as condições para manter no futuro o papel que desempenha na aproximação entre o Sul da China e a Europa e pode reforçar essa posição potenciando o "diálogo" da dinâmica económica regional com a singularidade cultural do território.

A área geográfica de Macau - apenas 23 quilómetros quadrados - e a sua população - cerca de 430 mil habitantes - não podem obviamente ser a razão da importância atribuída à futura Região Administrativa Especial (RAEM) no contexto das relações da República Popular da China (RPC) e de outros países asiáticos com o Ocidente, em particular com a União Europeia (UE).

Determinantes de tal especificidade regional são, sobretudo, as características únicas de Macau em termos económicos, como sustenta,em declarações à Agência Lusa, o presidente da World Trade Center Macau (WTCM), António Leça.

A WTCM é uma sociedade anónima que congrega duas dezenas de empresários locais e o governo de Macau - detendo este 60 por cento do capital social - e presta assistência às companhias e aos investidores para que aproveitem as oportunidades criadas no mundo internacional dos negócios.

Uma certa "visão estratégica" dos navegadores portugueses de Quinhentos, que transformaram Macau num entreposto incontornável nas trocas comerciais entre a Europa e o Extremo Oriente, nos últimos quatro séculos, é hoje retomada com grande entusiasmo pelas instâncias da Europa comunitária.

Num relatório divulgado em Novembro, a Comissão Europeia salienta o papel do território na ligação entre o Velho Continente e a Ásia, em áreas como "a democracia, os direitos humanos, as liberdades individuais (...), as questões económicas, nomeadamente a Organização Mundial do Comércio (OMC), cultura e ainda como um centro regional de troca de conhecimentos e formação". Um terço das exportações de Macau têm como destino a União Europeia.

Também o chefe do executivo da futura RAEM, Edmund Ho, sublinha que Macau, pela sua história e pela relação com Portugal, pode contribuir para o estreitamento das relações entre os países da UE e a RPC.

"O papel de Macau para com os homens de negócios dos países europeus deve ser essencialmente de facilitador da entrada num mercado maior como a China", considera Edmund Ho, frisando - em recente entrevista à Lusa - que "o território preservará o seu sistema capitalista, é um porto da China e possui atractivos fiscais,financeiros, de serviços e económicos".

Em 1993, Macau e a União Europeia celebraram um Acordo Comercial e de Cooperação, que vai manter-se em vigor após 19 de Dezembro e que abrange as áreas da formação, cooperação empresarial e a preservação da presença cultural europeia.

O Instituto de Estudos Europeus de Macau (IEEM) ministra dois cursos superiores que apostam no futuro das relações da RAEM e da própria China continental com a União Europeia.

Trata-se de um mestrado em Estudos Europeus (reconhecido este ano pela Universidade de Bruxelas) e uma pós-graduação em Gestão das Artes, promovidos em colaboração com a Universidade de Macau e o Instituto Politécnico, respectivamente, e frequentados por um total de 60 alunos, 40 por cento dos quais são, este ano, oriundos da República Popular da China.

"Não íamos fazer coisas que não tivessem nada a ver com a China",salientou à Lusa Fernando Almeida, director do IEEM, que "vaticinou"em relação ao futuro de Macau que "a China não vai matar a galinha dos ovos de oiro".

Na área da formação, o Instituto promove ainda cursos de curta duração, designadamente sobre mercados financeiros, a OMC, direito europeu e planeamento estratégico. Incumbe ainda à instituição difundir o ideal europeu nesta zona da Ásia.

No dia 25 de Novembro, Maria do Céu Esteves, presidente do IEEM,assinou com a Comissão Europeia, em Bruxelas, um contrato no valor de 280 mil euros (cerca de 56 mil contos) para o desenvolvimento de projectos de divulgação e cooperação entre a UE e a região asiática.

O euro, aliás, foi ao longo de 1999 o tema central de seminários,conferências e cursos organizados pelo IEE, que mantém colaborações diversas com universidades chinesas, nas quais distribuiu um CD-Rom com a informação essencial sobre a nova moeda da UE. Versões em chinês e inglês permitem a sua divulgação noutros países da Ásia-Pacífico.

Por iniciativa da mesma entidade, vários estados da UE e asiáticos ficarão em breve ligados em rede, com acesso a uma base de dados sobre diferentes instituições afectas às respectivas administrações públicas, no âmbito do projecto "Asia - Europe Public Administrations Network".

Macau, que dispõe do único Euro-Infocentre na região da Ásia-Pacífico em ligação com a rede empresarial europeia, aguarda o estabelecimento no território de um representante permanente da União Europeia.

Entretanto, Edmund Ho acaba de nomear a coordenadora da Delegação Económica e Comercial de Macau junto da UE. Maria Tereza Sanches vai dirigir, em Bruxelas, o escritório onde funciona a actual delegação da administração portuguesa do Território.

No relatório divulgado em Novembro, intitulado "A União Europeia e Macau: Depois de 2000", a Comissão Europeia congratula-se com as boas perspectivas de a RAEM vir a assumir um papel regional na formação, informação e troca de conhecimentos, através de entidades privadas e públicas, como é o caso do Instituto de Estudos Europeus e da World Trade Center Macau.

"A Europa tem que ter em conta que a China é uma das principais referências estratégicas para o próximo milénio e, nesse sentido,Macau representa um ponto privilegiado. Macau permite estar na China sem ser chinês", declarou à Lusa o presidente da WTCM, António Leça.

Significativamente, a derradeira viagem oficial do governador de Macau, Rocha Vieira, incluiu, além de visitas a Pequim e Lisboa, uma deslocação a Bruxelas, onde manteve contactos com diferentes órgãos e responsáveis políticos da UE, designadamente com o comissário para a srelações externas, Chris Patten, último governador britânico de Hong Kong.

Rocha Vieira justificou a sua ida à capital belga com a vantagem de incrementar as relações da futura RAEM com a União Europeia, o que considera "fundamental para a sua autonomização" no seio da China e para a sua "internacionalização e reconhecimento como entreposto e plataforma de cooperação".

A administração de Macau regressa à China a 20 de Dezembro, 11 dias antes de Portugal assumir por seis meses a presidência da União Europeia.

Lusa/Fim