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Macau/99: Igreja Católica espera no futuro comunhão com a China

Arquivo Lusa 1999

+ + + Por Rui Boavida, da Agência Lusa + + +

Macau, 05 Dez (Lusa) - Passados quatro séculos de evangelização da China, a Igreja Católica de Macau encontra o "caminho da salvação"na estrada por onde chegou - voltar a converter o Império do Meio a partir da "Cidade do Santo Nome de Deus".

Quando os primeiros padres jesuítas chegaram a Macau, em 1513, e nas costas do mar do sul da China fundaram a primeira diocese da Ásia,que cobria quase metade do mundo - de Goa à China, passando pelo Japão e Coreia - traziam o catecismo bem estudado: difundir a palavra de Deus e conquistar novas almas para o rebanho de Cristo.

Tão bem resultou o esforço dos padres de Macau que em 1948 existiam já quase 3,3 milhões de católicos na China. Uma força tal assustou a China cada vez mais comunista, que, a ferro e fogo, obrigou os católicos do país a perderem a obediência ao Vaticano.

A 15 de Junho de 1957, Pequim mandava inaugurar a Associação Católica Patriótica da China (ACPC), que se recusa a prestar obediência ao Papa. E até Dezembro de 1999, de Pequim, nada de novo.

É com esta igreja sem Papa que a igreja de Macau vai ter de aprender a conviver. E que, a acreditar nas palavras do padre Luís Sequeira, superior jesuíta do território, vai tentar mudar.

"Não há que ter ilusões. É preciso estar consciente de que, em última análise, quem vai mandar em Macau é quem manda na China continental. (...) Macau pode ajudar a grande China a entender qual é o seu grande problema: é que Pequim acha que a Igreja Católica é uma entidade política com relações com o poder temporal", diz o padre Sequeira.

Se para os primeiros padres chegados a Pequim, que atingiram os mais altos postos na Corte Celestial, se tratava de converter os humildes com o apoio dos poderosos, agora, passados quase 500 anos, a palavra de ordem é convencer os poderosos com o apoio dos humildes.

"Há uma grande diferença em relação ao passado. Antes, a comunidade católica vinha de fora da China. Agora, a Igreja de Macau pode ajudar a comunidade católica já existente na China a dar os primeiros passos e tomar as rédeas da sua própria vivência, sem estar dependente da ACPC", defende Luís Sequeira.

Mas o superior da Companhia de Jesus não é dogmático e, numa leve crítica ao Vaticano, admite mesmo que "Macau pode provar à Igreja Universal (Vaticano) que não pode haver interferência política entre a igreja e a sociedade".

O jesuíta, fluente em cantonense tal como os primeiros padre da companhia que chegaram a Macau, está confiante nas promessas da Lei Básica, a mini-constituição que vigorará no território depois de 19 de Dezembro e que garante à população local, para os próximos 50 anos, a manutenção do estilo de vida "basicamente inalterado", incluindo a liberdade de expressão e a liberdade de culto.

Uma boa notícia para a comunidade católica de Macau, cerca de 40 mil pessoas, dois terços das quais são chinesas.

Mas a verdadeira influência da igreja no território vai para além destas almas. Os padres dinamizam mais de 30 escolas, onde estudam mais de 40 mil alunos, sendo responsáveis por diversas áreas de assistência social,tal como lares, a silos e infantários.

Quando os portugueses em Macau estão de partida, as estruturas paroquiais localizam-se cada vez mais. Existem cada vez mais padres chineses e o cantonense é cada vez mais utilizado.

Rita Costa Alves, catequista de Macau, afirma que "as catequeses portuguesas têm vindo a ser reduzidas e a ser concentradas na Sé,enquanto as chinesas estão em expansão. (...) Mas, seja como for, os colégios podem ser grandes meios de evangelização".

E a verdadeira influência do ensino católico de Macau está patente no governo da Região Administrativa Especial de Macau (RAEM),que tomará posse no próximo dia 20 de Dezembro, horas depois de Portugal entregar a administração do território à China.

"Dos diferentes membros do governo, muitos estudaram em colégios católicos", lembra o padre Luís Sequeira.

Florinda Chan, por exemplo, secretária para a Administração e Justiça do executivo da RAEM, é mesmo conhecida por ser uma católica fervorosa cujo pai é sacristão na Igreja de S. Domingos.

Por todas estas razões, a igreja católica de Macau encara o futuro na "paz do senhor". A instituição sabe o que quer e com quem pode contar. Com homens como Manuel Machado, missionário comoniano, 41 anos, radicado em Macau há cerca de sete, para quem "a igreja de Macau pode ainda ser um ponto de partida para a evangelização da Ásia".

"O nosso sonho futuro", confessa, "era um dia poder trabalhar na China. Daí o esforço que estamos a fazer para aprender cantonense. É que Macau já não pode ser só o ponto de chegada, tem de ser o ponto de partida".

No próximo Natal, o primeiro passado em Macau à sombra da bandeira chinesa, os coros das igrejas da cidade vão continuar a cantar a plenos pulmões, e a dar o mote pode estar Luís Sequeira, herdeiro dos primeiros jesuítas que aportaram a Macau, que pensa que"com o final da administração portuguesa, a realidade para a igreja pode até ganhar outro alento".

"Descontraídos os corações da política, podemos passar a trabalhar no plano espiritual", explica o padre Sequeira.

Lusa/Fim