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Macau/99: Legado de Portugal deixa Macau com identidade própria

Arquivo Lusa 1999

+ + + Por José Costa Santos, da agência Lusa + + +

Macau, 04 Dez (Lusa) - Depois de cerca de 450 anos a governar Macau, Portugal sai do Oriente como um "colonizador" exemplar que soube ser diferente de todas as outras potências europeias que  administraram terras asiáticas.

De pequeno porto de abrigo na rota comercial aberta pelos portugueses entre o Oriente e o Ocidente, Macau evoluiu ao longo dos séculos para uma pequena metrópole moderna e que lhe permite aspirar  a um futuro de sucesso dentro da grande China, mantendo a sua vocação de ponto de encontro de culturas e civilizações.

Mas, segundo fazem notar altos funcionários d administração do território, a modernização de Macau fez-se sem que Portugal impusesse as suas empresas e os seus interesses comerciais, como aconteceu com outros países europeus que administravam terras no Oriente.

Essa atitude portuguesa permitiu "construir em Macau uma verdadeira economia aberta", onde as regras de mercado funcionaram em favor do consumidor - quem oferecia o melhor produto e a melhor  qualidade vencia.

As três grandes concessões de bens de primeira necessidade - a água, a electricidade e os telefones - são três casos apontados como exemplificativos desta atitude.

"Apesar de manter nas companhias concessionárias posições com algum relevo económico, é certo que Portugal não detém as maioria do capital social dessas empresas", disse uma das fontes contactadas pela agência Lusa.

Mas a posição portuguesa relativamente à gestão económica de Macau - beneficiando a população do território e até empresas regionais que aqui colocaram sucursais para aproveitar quotas de mercado impostas pelas organizações internacionais - foi também, sublinharam as fontes contactadas pela Lusa, "linha orientadora" para outras áreas, como a concessão de documentos de identificação portugueses aos naturais do território.

Hoje, e no futuro, qualquer cidadão chinês de Macau poderá sair do território com um passaporte português e beneficiar de todas as regalias dadas aos possuidores de nacionalidade lusa, uma vantagem  comparativamente aos chineses de Hong Kong que sempre foram marginalizados pela coroa britânica embora tenham nascido sob administração inglesa.

Mas a atitude de Portugal relativamente a Macau não se traduz apenas pela concessão de nacionalidade ou pelo respeito pelas regras do mercado.

O território está hoje, a poucos dias da transferência da Administração para a China, equipado com infraestruturas modernas, possui um sistema judicial baseado no primado da lei, e dispõe de sistemas de apoio similares a qualquer grande metrópole mundial.

Crianças e idosos residentes em Macau têm acesso gratuito a cuidados de saúde - incluindo consultas, internamentos, tratamentos e medicamentos -, as escolas particulares do ensino chinês são, na sua  maioria, subsidiadas pela Administração nos primeiros nove anos de formação académica por forma a proporcionarem escolaridade gratuita aos jovens e a maior parte das acções culturais é acessível à  população.

Estes exemplos de intervenção pública são, contudo, uma pequena parte do esforço encetado pela Administração no desenvolvimento do território que nos últimos doze anos - depois da assinatura da Declaração Conjunta luso-chinesa sobre Macau - sofreu alterações profundas que marcarão várias épocas quer ao nível dos empreendimentos, quer também na formação de quadros locais capazes de  dirigir a sociedade.

Macau passou a dispor em poucos anos de um aeroporto internacional, de estações de tratamento de águas residuais, de um Centro Cultural, novos arruamentos, mais jardins, obras necessárias ao presente mas fundamentais no futuro, para o desenvolvimento social e económico do território.

A nova ponte Flor de Lotus, por exemplo, será fundamental para desenvolver a actividade aeroportuária, quer de carga quer de passageiros, porque permitirá uma ligação rápida ao sul da China bem como à auto-estrada que ligará Pequim a Cantão, a capital da província de Guangdong.

Mas quem chega pela primeira vez a Macau e inicia uma visita ao território como a uma antiga colónia portuguesa, vai, com certeza, interrogar-se como os portugueses conseguiram governar esta terra  durante mais de 450 anos sem comunicar directamente com a maioria da população.

De facto, Macau é uma terra diferente e apesar de ter estado "vinculada" ao Ministério das Colónias, nunca foi encarada como tal e nunca os governadores que a dirigiram a interpretaram como uma  conquista mas sim como uma recompensa pela ajuda portuguesa na expulsão dos piratas que infestavam os mares da região.

Por isso, quem chega a Macau estranha o facto de a maioria da população não saber falar português, estranha a forma de convívio entre portugueses e chineses, estranha os cheiros, as tendinhas de comida que enchem os passeios, a forma de viver de um território lusitano onde a comunidade chinesa impera, comanda a actividade comercial e tem o maior poder de compra.

Depois de mais de 450 anos a governar Macau, Portugal deixa à futura Administração um território moderno em infraestruturas, deixa um património arquitectónico rico e bem recuperado, deixa uma  comunidade - a macaense - viva e defensora dos seus valores luso-chineses, deixa um exemplo de tolerância e respeito pelos direitos humanos.

O reconhecimento pelo esforço de Macau na recuperação do património pode, para exemplo, ser avaliado pelas declarações de Bernd von Droste, director do património da UNESCO, que considera que  a "herança cultural da cidade tem de ser preservada para benefício futuro da humanidade".

E durante todos estes séculos, a única coisa que Portugal não conseguiu deixar como legado à população de Macau foi a língua e a cultura portuguesas, pontos considerados fundamentais para manter vivos os valores de um legado lusitano.

O acordo entretanto obtido entre Portugal e a China para a regulamentação das duas línguas oficiais - português e chinês - poderá ser importante para manter e reforçar os laços entre portugueses e chineses através de Macau.

E a avaliar pelas palavras do presidente Jorge Sampaio - que afirmou que para Portugal "Macau e as suas gentes têm um significado muito especial" -, os portugueses continuarão atentos a tudo o que se  passar no território.

"Temos orgulho na nossa história e temos orgulho em Macau", são as palavras de Jorge Sampaio que a maioria dos portugueses subscrevem.

Lusa/Fim