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PR em Macau: Macaenses têm de passar de minoria étnica a elite reconhecida

Arquivo Lusa 1999

Macau, 22 Mar (Lusa) - Neste final de século em que a administração de Macau reverterá para a China, os macaenses, que são minoria étnica, têm de trabalhar para ser elite reconhecida, a fim de se manterem como comunidade, afirmou hoje em Macau Gabriela César.

Falando em nome da comunidade macaense local na sessão solene de abertura do III Encontro das Comunidades Macaenses, Gabriela César, ao dirigir-se directamente ao Presidente da República Jorge Sampaio, disse que Portugal tem um papel importante a desempenhar não podendo manter-se numa posição expectante mas sim pró-activa.

Dizendo que o Consulado Português de Macau terá de ser uma estrutura viva e aberta, em ordem a ser relevante nos domínios político, cultural, económico e de cooperação, a presidente da Fundação para a Cooperação e Desenvolvimento de Macau (FCDM) adiantou que Portugal deve encontrar um novo papel criativo se quer manter uma presença viva no território e não desbaratar a influência que nele deteve ao longo de séculos.

A Fundação para a Cooperação e Desenvolvimento de Macau foi criada formalmente em Maio de 1998, tendo estatutariamente objectivos culturais, científicos, educacionais, sociais, filantrópicos e académicos, bem como a promoção da preservação da herança cultural única de Macau.

Segundo a oradora, o primeiro objectivo para Portugal terá de ser no aspecto cultural, já que nunca foram criadas condições para a manutenção em Macau de interesses económicos nacionais, e de imediato no sector da educação.

"A escola portuguesa (já em funcionamento) terá de ser de excelência. E de excelência terão de ser o ensino que ministre, os professores que nela trabalhem e o apoio económico e político a fim de que possa vencer o facilitismo de dar aos filhos dos que ficarem uma educação de matriz chinesa ou inglesa", disse a presidente da FCDM.

"Terá assim de ir ao arrepio do que acontece noutras paragens da emigração portuguesa onde o ensino da nossa língua carece de apoios vários e consistentes", disse, para acrescentar que Portugal deverá fazê-lo não apenas por um dever moral mas com o sentido de que a manutenção de uma presença portuguesa no Oriente é útil à afirmação de Portugal no mundo.

O Presidente da República, que teve de sair antes do termo da sessão solene de abertura do encontro para cumprir mais um ponto da sua agenda de trabalhos em Macau com uma visita à Escola Portuguesa, repetiu, ao longo do seu curto discurso, a mensagem que veio
transmitir, que é a de que estão criadas todas as condições institucionais, desde a organização político-administrativa às judiciárias e educativas, para que a identidade de Macau se fortaleça e perdure.

"Portugal deixará em breve de administrar Macau. Mas os laços que o ligam às suas gentes e ao seu destino, vivam elas no território ou algures no mundo, vão manter-se", garantiu Jorge Sampaio aos cerca de 1400 macaenses que participaram neste III Encontro.

O governador Rocha Vieira, por seu turno, disse que "garantir a autonomia do território e projectar para o futuro a sua utilidade geo-económica foram alguns dos grandes objectivos que balizaram a acção da administração portuguesa de Macau" para que "haja estabilidade e uma transferência, sem sobressaltos, de Macau para a administração da República Popular da China, em 20 de Dezembro".

Dirigindo-se especificamente aos macaenses presentes no grande auditório do recém-inaugurado Centro Cultural de Macau, Rocha Vieira disse que têm uma grande tarefa, que é a de afirmar a cada momento o seu empenhamento cívico no desenvolvimento e progresso de Macau.

Rocha Vieira acrescentou que "podem fazê-lo com a certeza de que são uma das mais fortes marcas da singularidade de Macau, nunca podendo ser vistos como uma minoria étnico-cultural mas antes como o mais frutuoso resultado do contacto entre os povos português e chinês".

"Os macaenses são, na essência, uma das razões do segundo sistema", afirmou Rocha Vieira.

Nesta sessão solene usaram ainda da palavra os presidentes da Comissão Instaladora, José Maneiras, do Club Lusitano de Hong Kong,
Arnaldo de Oliveira Sales, e de uma série de Casas de Macau espalhadas pelo mundo.

Na sua intervenção, o presidente da Comissão Instaladora deste III Encontro das Comunidades Macaenses voltou a manifestar a sua esperança em que o Governo da futura Região Administrativa Especial venha a apoiar a realização destas iniciativas, para que o IV Encontro possa vir a ter lugar em Macau em 2002.

Em declarações à Agência Lusa, o secretário de Estado das Comunidades, José Lello, afirmou ser importante a realização destes encontros e adiantou ter já conversado com o presidente da Fundação Oriente, Carlos Monjardino, com quem afirmou manter as melhores relações, a fim de que a fundação possa vir a ter um papel de apoio à realização dos encontros.

Lusa/Fim