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PR em Macau: Uma visita, duas opiniões chinesas

Arquivo Lusa 1999

Macau,19 Mar (Lusa) - O jornal pró-Pequim, "Ou Mun" contesta hoje as declarações feitas pelo Presidente Jorge Sampaio e pelo Governador Rocha Vieira segundo as quais Portugal cumpriu as promessas da declaração conjunta e que as suas obrigações estão praticamente concluídas.

O tom do artigo do "Ou Mun" contrasta nitidamente com as declarações feitas pelo vice-primeiro-ministro Chinês, Qian Qichen que hoje partiu de Macau depois de ter assistido à inauguração do Centro Cultural e de ter mantido um encontro com o Presidente Jorge Sampaio.

Qian Qichen em declarações públicas reconheceu a "singularidade de Macau" e considerou o território como "muito seguro" numa clara antítese da posição assumida pelo jornal oficioso de Pequim em Macau.

"Graças à amigável cooperação entre a China e Portugal, a transição de Macau decorrerá sem sobressaltos e estou certo que as relações entre os dois países continuarão a desenvolver-se", disse  ainda Qian Qichen.

Dois dias antes da chegada de Qian Qichen a Macau o porta-voz do ministério dos negócios estrangeiros chinês, Sun Yuxi, afirmou, em Pequim, que a China se congratulava com a cooperação sino-portuguesa em Macau, e disse que "as principais questões do processo de transição foram resolvidas através do diálogo e cooperação".

"Esperamos que as duas partes possam aprofundar a cooperação e acelerar os preparativos da transferência de poderes", acrescentou Sun Yuxi.

O jornal, que representa oficiosamente as posições da China em Macau, escreve que "os residentes de Macau (...) pensam que Portugal necessita de ter uma atitude mais responsável em relação à história e uma maior cooperação com a China de modo a resolver questões importantes ao nível da estabilidade social e prosperidade".

No artigo do "Ou Mun", o responsável pelo comentário intitulado "Dúvidas sobre os discursos do Senhor Presidente e do Governador" contesta ainda as declarações do Chefe de Estado segundo as quais Portugal teve grande sucesso na modernização do território e na criação de infraestruturas que tornaram Macau num centro de serviços e de turismo com um papel de ponte.

"Os residentes de Macau (...) não partilham da ideia do sucesso que o Senhor Presidente fala. Acreditamos que o desenvolvimento económico de Macau foi provocado pelas oportunidades regionais e não apenas uma contribuição do governo de Macau", escreve ainda o jornal "Ou Mun" na página onde descreve, em pormenor, as actividades do vice-primeiro-ministro chinês e do seu primeiro  encontro com Jorge Sampaio num jantar oferecido pelo governador Rocha Vieira.

O articulista, que assina com pseudónimo, considera ainda que a grande preocupação dos residentes de Macau é "a situação económica e os problemas de segurança" e não "o futuro de Macau daqui a 50  anos".

"O Senhor Presidente disse que as línguas portuguesa e chinesa foram introduzidas, ao mesmo nível, nos serviço públicos e que terminou a localização dos funcionários (...) mas Senhor Presidente o que se passa de facto é que a língua chinesa não foi implementada nos serviços públicos e a localização dos funcionários ainda é muito lenta", assinala ainda o "Ou Mun"que veicula normalmente as posições de Pequim.

O jornal admite que o Governador Rocha Vieira tem razão quando afirma que a diversidade cultural é resultado do esforço da população e um factor importante para o turismo mas mostra-se "céptico" quanto à tese segundo a qual a administração portuguesa não deixará dificuldades financeiras para a futura Região Administrativa Especial de Macau a ser criada a partir de 20 de Dezembro de 1999.

"Com todos os problemas que Macau possui como é que os dirigentes de Portugal e Macau se podem sentir orgulhosos? Nós os 420 mil residentes de Macau (...) esperamos que a visita do Presidente Jorge Sampaio traga confiança e estabilidade(...) e que Portugal assuma as suas responsabilidades e obrigações solenes feitas na Declaração Conjunta Luso-Chinesa", concluiu o comentarista.

Analistas políticos disseram à agência Lusa que a posição do jornal "Ou Mun" mostra o seu "conservadorismo" em relação à nova linguagem do governo de Pequim e reflecte claramente a "habitual atitude chinesa de ter um discurso para dentro (China) e outro para fora (Mundo)".

Lusa/Fim