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Visita de Xi é recompensa face a Hong Kong

epa08065333 Pro-democracy protesters turn on the flash lights of their mobile phones during a rally marking the sixth month anniversary of the protests movement in Hong Kong, China, 12 December 2019. Hong Kong has entered its seventh month of mass protests, which were originally triggered by a now withdrawn extradition bill, and have since turned into a wider pro-democracy movement.  EPA/MIGUEL CANDELA

Analistas em Hong Kong afirmam que a visita do Presidente da China a Macau é uma recompensa pelo êxito na aplicação do princípio 'um país, dois sistemas', enquanto na região vizinha continuam os protestos antigovernamentais. 

Em declarações à Lusa, um analista de Hong Kong, Lam Hoi, considerou que o Governo chinês está a procurar cidades que possam substituir Hong Kong nas relações com as empresas estrangeiras devido à crescente desconfiança dos residentes locais e dos crescentes conflitos entre Pequim e a região administrativa especial chinesa.

"Macau é obediente, e gradualmente vai substituir Hong Kong como centro financeiro para garantir o desenvolvimento do plano da Grande Baía" Guangdong-Hong Kong-Macau, apresentado no início deste ano, afirmou.

Ao contrário de Hong Kong, há mais de seis meses palco de protestos antigovernamentais, Macau abraçou a integração, com poucas perturbações pró-democracia ou sentimentos anti Pequim.

Para o vice-presidente da Associação de Jovens Comentadores, Victor Chan, "a impressão de muitos residentes de Hong Kong sobre Macau continua a ser a do passado, acreditando eles que Macau é um parente pobre da cidade".

A Associação dos Jovens Comentadores foi fundada pelo deputado Holden Chow, vice-presidente da Aliança Democrática para o Progresso de Hong Kong, o maior partido pró-Pequim na região semi-autónoma chinesa.

Contudo, com o apoio de Pequim, Macau desenvolveu-se rapidamente nos últimos 20 anos como capital mundial do jogo, com um Produto Interno Bruto 'per capita' muito superior ao de Hong Kong, o que coloca o território administrado por Portugal até 19 de dezembro de 1999 entre os três países mais ricos do mundo.

Um professor na Universidade Baptista de Hong Kong também destacou a crescente importância de Macau na área financeira, nos últimos anos.

"As novas medidas, como o estabelecimento de uma bolsa de valores em renminbi em Macau, no âmbito do plano de desenvolvimento da Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau, publicado em fevereiro deste ano, mostra a crescente importância de Macau nos próximos anos", disse Bruce Lui.

Lui acrescentou que dar mais incentivos a Macau implica que os responsáveis de Pequim esperam que Hong Kong possa ser mais como Macau e possa cumprir as exigências e expetativas da China para Hong Kong.

Contudo, este objetivo pode ser difícil de alcançar, devido aos passados coloniais e aos sistemas judiciais muito diferentes.

"Uma vez que a maioria dos centros financeiros internacionais usam a lei comum, Macau, que usa a lei cívica, pode ter mais dificuldades em aumentar a confiança dos investidores. Por outro lado, Macau está principalmente dependente da indústria do jogo, o que torna difícil o desenvolvimento de um sistema financeiro vibrante", afirmou Lui.

Para o académico, as medidas excecionais de segurança durante a visita de Xi Jinping, que chegou hoje a Macau, são uma resposta aos violentos protestos em Hong Kong, nos últimos seis meses.

"A segurança reforçada é a maneira de prevenir quaisquer potenciais manifestações, palavras de ordem e conflitos que possam causar embaraço durante a visita do Presidente Xi", disse.

Apesar de reconhecer a necessidade de segurança, Bruce Lui considerou que algumas ações, incluindo a suspensão da circulação do sistema de metro ligeiro da Taipa, a instalação de postos de controlo temporários na ponte Hong Kong-Zhuhai-Macau e a recusa de entrada em Macau a alguns residentes de Hong Kong, são desnecessárias e perturbam os residentes.

Um consultor da Universidade Chinesa de Hong Kong afirmou que as medidas de segurança "são desproporcionais". "O Presidente Xi está assustado, uma vez que pensa que 'inimigos do Governo chinês' podem atuar em Macau", disse Allan Au.

Para Au, é improvável que Macau ou qualquer outra cidade chinesa venha a ocupar o lugar de Hong Kong no futuro mais próximo.

"Macau tem mais vantagens da indústria do jogo, mas falta-lhe uma fundação estável nas indústrias financeiras. Estas duas regiões administrativas especiais não vão assumir o papel uma da outra, uma vez que têm a sua própria especialização no desenvolvimento económico", afirmou.

Uma estudante universitária de Hong Kong disse ver o "rumor da substituição" como uma "manobra política" do Governo chinês.

"Macau aprovou a lei de segurança em 2009 sem protestos de larga escala, o que mostra que Macau já estava sob forte controlo da China, enquanto Hong Kong continua a ser resistente, o que outras cidades não podem fazer. Os investidores ainda têm confiança na nossa cidade", considerou Krista Lau.

 

Elsa Jacinto