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Monjardino critica sociedade “fraca”, reflexo da relação permissiva face à China

O presidente da Fundação Oriente, Carlos Monjardino, durante a entrevista à Agência Lusa, Lisboa, 19 de novembro de 2019. (ACOMPANHA TEXTO DO DIA  27/11/2019) ANTÓNIO COTRIM/LUSA

 

O presidente da Fundação Oriente, Carlos Monjardino, considera que em Macau nunca existirá uma situação parecida com a de Hong Kong, porque a sociedade local é "fraca", reflexo duma administração portuguesa mais permissiva em relação à China.

"Em Macau não vai haver nunca uma coisa igual ou parecida ao que aconteceu em Hong Kong", afirmou Carlos Monjardino, em entrevista à Agência Lusa.

Na antiga possessão portuguesa "não há fagulhas" e as sociedades civis dos dois territórios do Delta do Rio das Pérolas não têm nada a ver uma com a outra: “uma é muito forte, a de Hong Kong, a de Macau é fraca".

Para o presidente da Fundação Oriente e antigo número dois do governo de Macau nos anos de 1980, a diferença tem apenas uma explicação: "os ingleses e os portugueses são completamente diferentes e tudo o que foi implementado em Macau tem claramente a ver connosco e o que foi implementado em Hong Kong tem a ver com os ingleses".

Ora, "os ingleses têm uma mentalidade completamente diferente da nossa", rematou.

Por isso, "a sociedade de Macau aceita mais algumas imposições de Pequim". E os chineses “acham que Macau é um bom aluno, em contraponto ao que se passa em Hong Kong”.

Para Carlos Monjardino, "a questão dos protestos em Hong Kong começou por uma pequena fagulha", numa referência ao projeto de lei, apresentado em abril, que permitiria a extradição de suspeitos de crimes de Hong Kong para a China continental e que esteve na origem das manifestações e protestos violentos desde junho.

Essa "decisão de as pessoas de Hong Kong poderem ser mandadas para serem julgadas na China, obviamente foi um disparate", considerou Monjardino.

E para o presidente da Fundação Oriente a medida faz parte de "um processo que o Presidente da China tem como um dos principais objetivos no mandato, a reunificação".

"Só que as coisas não podem ser feitas assim", defendeu.

Para Monjardino, todo o processo "foi bastante mal gerido" pelas autoridades: "A senhora que está em Hong Kong, coitadinha, procura fazer o melhor que pode, mas não consegue, até porque não é ela que decide, quem decide é Pequim".

Para o presidente da Fundação Oriente, Carrie Lam "aguentou o primeiro embate até ao máximo, até que Pequim percebeu que não podia continuar a insistir”.

Em Macau, a extradição de cidadãos para serem julgados na China acontece "há muito tempo", disse.

"Já nos tempos em que eu estava em Macau (...) havia pessoas que tínhamos de recambiar para a China, alguns ilegais", recordou.

A eventual proteção jurídica aos cidadãos que vivem em Macau para não serem julgados sob o regime continental é algo que "não "está previsto, especificamente", explicou Carlos Monjardino.

Assim, "quando havia um caso de um crime grave perpetuado na China e a pessoa depois se vinha refugiar em Hong Kong ou em Macau, a China tinha razão de pedir a sua extradição", relatou

"O problema é que se misturam as coisas que são graves com as que não são graves e há casos que a China quer julgar do outro lado, embora a gente tenha uma justiça completamente diferente deste lado", sublinhou.

Por isso, diz ter sido crítico relativamente a "alguns governos de Macau", precisamente pela "permissividade com que encararam, sempre, algumas das exigências por parte de Pequim."

No tempo em que esteve em Macau, lembra-se do caso de um indivíduo que Pequim pediu para ser entregue e julgado na China continental.

No dia seguinte, o governo do território de Macau, ainda sob administração portuguesa, soube que esse cidadão tinha sido julgado sumariamente.

"Nós soubemos que naquela noite ele foi morto junto das Portas do Cerco", na fronteira, afirmou.

Porém, assegurou, que um cidadão chinês "não é tratado da mesma maneira" pela China que um cidadão que "tenha passaporte português".

"Como a maioria dos macaenses têm passaporte português, esses têm uma proteção natural. Agora, os chineses que estão a viver em Macau não", sublinhou.

Segundo os críticos e alguns analistas o controverso projeto Lei de Hong Kong poderia expor a população a julgamentos injustos e tratamento violentos, além de proporcionar à China maior influência sobre Hong Kong.

A líder de Hong Kong, Carrie Lam, disse esta segunda-feira que vai ouvir com “humildade e seriedade” a sociedade depois da esmagadora vitória dos candidatos pró-democracia nas eleições sobre o campo pró-Pequim.

 

Pequim vai resolver Hong Kong em pouco tempo

 

"Macau, a curto prazo, acaba por beneficiar" economicamente da crise da cidade vizinha, mas "a médio prazo não, porque a questão de Hong Kong vai-se resolver, espero que sem problemas de maior, mas não tenho tanta certeza", afirmou Carlos Monjardino em entrevista à Lusa, a propósito dos 20 anos da transferência da administração portuguesa daquele território para a China.

Para o presidente da Fundação Oriente, Macau poderia também aproveitar a situação de instabilidade no território vizinho de Hong Kong “para atrair capitais”, mas esse tipo de mercado “não existe praticamente”.

Carlos Monjardino sublinhou, porém, que espera que Pequim não use uma posição de força na resolução da situação em Hong Kong.

"Seria um erro para Pequim", disse, sobretudo "depois de Tiananmen”, referindo-se aos confrontos ocorridos na conhecida praça da capital chinesa, em 1989.

Em 4 de junho de 1989, a China encerrou de forma brutal o protesto em massa pela liberdade e democracia, na Praça da Paz Celestial, conhecida pelo nome de Tiananmen.

A violência militar resultou em centenas de mortos e milhares de feridos.

Carlos Monjardino lembrou que hoje é tudo muito mais mediático do que era em 1989, pelo que "toda a gente no mundo inteiro está a ver a reação de Pequim".

Ora, a China não pode expor-se a uma crítica internacional massiva por uma posição eventualmente mais dura que venha a tomar, considerou.

A líder de Hong Kong, Carrie Lam, disse segunda-feira que vai ouvir com “humildade e seriedade” a sociedade depois da esmagadora vitória dos candidatos pró-democracia nas eleições de domingo sobre o campo pró-Pequim.

As manifestações em Hong Kong começaram em junho, como forma de protesto contra um controverso projeto de lei, apresentado em abril, que permitiria a extradição de suspeitos de crimes para a China continental sob certas circunstâncias.

Os críticos e analistas afirmam que aquela medida, a avançar, poderia expor a população a julgamentos injustos e tratamento violento, além de proporcionar à China maior influência sobre Hong Kong.

 

Ana Tomás Ribeiro