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Timor-Leste: O primeiro avião português em 24 anos

Arquivo Lusa 1999

Por António Sampaio e Paulo A. Nogueira (Texto) e Lim Choi e António Sampaio (Fotos) da Agência Lusa

Díli, 18 Nov (Lusa) - O primeiro avião português a chegar a Timor-Leste em 24 anos aterrou hoje na pista do aeroporto da cidade de Baucau, trazendo a bordo 67 refugiados e a primeira ajuda humanitária directa para o Conselho Nacional da Resistência Timorense (CNRT).

Faltavam escassos minutos para as 15:00 locais quando o Airbus 320 da Air Macau, pilotado pelo capitão Sérgio Vicente, aterrou na pista do Aeroporto Internacional de Baucau.

No seu interior os refugiados aclamaram a chegada, enquanto cá fora alguns dirigentes do CNRT e representantes da igreja católica timorense eram obrigados a esperar à distância, impedidos de chegar mais próximo do avião pelo "exagerado" contingente de soldados australianos que se encontram no aeroporto.

Júlio Alfáro, um dos dirigentes do CNRT que viajou para Baucau, disse à Lusa que a chegada do voo da Air Macau constituiu "um momento histórico", surgindo depois de 24 anos de luta dos timorenses.

A última vez que um avião português aterrou em Timor-Leste foi em 1975, quando um voo especial chegou a Díli para vir buscar famílias dos militares portugueses que ainda estavam no território e alguns estudantes timorenses que iam para Portugal.

Para os dirigentes timorenses que receberam os refugiados, o voo de hoje representou por isso "um momento muito emotivo", em particular numa altura em que continuam as pressões para que a presença de Portugal em Timor-Leste aumente ainda mais.

O avião marcou a chegada da primeira parte de um pacote de apoio humanitário canalizado directamente para o CNRT e que incluia medicamentos e outros bens de primeira necessidade.

O pacote de apoio humanitário inclui ainda o envio para Timor-Leste de 13 veículos todo-o-terreno - que virão de Singapura antes do final do mês - e um milhão de dólares em apoio financeiro para o CNRT.

David Ximenes, coordenador do comité de emergência do CNRT, disse à Lusa que, apesar de o avião da Air Macau "não dizer lá que é português", para já o território continua a fazer parte de Portugal e como tal "simboliza os elos entre os dois povos".

"É muito significativo. É um momento histórico voltar a ver aqui um avião português", disse.

João Carrascalão, outro dos dirigentes do CNRT que se deslocou a Baucau para testemunhar a chegada do avião da Air Macau, realçou que a população timorense tem durante os últimos meses "pedido constantemente uma maior presença portuguesa".

"Muitas pessoas me dizem que Portugal está a tardar em chegar. Ainda não há uma presença significativa e acaba por ser irónico que o voo venha de Macau, provando apenas que o general Rocha Vieira (governador de Macau) é um grande amigo dos timorenses e está sempre na linha da frente no apoio a Timor-Leste", disse.

Em declarações a jornalistas à chegada a Baucau, o representante de Rocha Vieira, coronel Alcino Raiano, realçou os importantes elos entre as duas comunidades, afirmando que Macau "foi sempre um local de acolhimento para refugiados timorenses".

"Neste últimos anos Macau contribuiu para apoiar os timorenses e esta iniciativa, com o apoio da Air Macau e da Cruz Vermelha Internacional, só confirma uma vez mais que Macau sempre foi um local de abrigo para os que tinham de fugir daqui da sua terra", sustentou.

Alcino Raiano era portador de uma mensagem de Rocha Vieira para "transmitir os votos de maior felicidade aos timorenses que vão embarcar nesta nova fase da longa caminhada pela independência".

Felizes por terem regressado estavam naturalmente os 67 timorenses que viajaram de Macau para Timor-Leste, tendo a maior parte seguido do aeroporto para a vila de Baucau, devendo posteriormente seguir para as suas casas.

Entre os refugiados contavam-se o padre Leão, da igreja de Motael, e Mariano Lopes da Cruz, o irmão do líder integracionista e antigo embaixador indonésio para assuntos de Timor-Leste, Francisco Lopes da Cruz.

Uma das refugiadas, Ana Paula Baptista, disse à Lusa que regressava a Timor-Leste depois de uma longa viagem de mais de dois meses iniciada quando teve que fugir de Díli no passado dia 05 de Setembro.

Depois de seguir para Atambua, em Timor Ocidental, a timorense viajou para Kupang, daí para Sulawesi, depois para as Flores, posteriormente para a Malásia e finalmente para Macau.

"Estou muito contente por poder regressar. Estive sempre com o meu marido e o meu filho e isso foi muito bom. Estou muito, muito contente", disse.

Maria de Fátima Soares, que também fugiu de Díli depois de o edifício da diocese ter sido atacado, a 05 de Setembro, disse à Lusa que não sabe o que vai encontrar quando regressar à sua casa em Bécora.

"Estou muito contente em regressar e agora só tenho é que voltar para ver o que é que sobrou. Não estou com muita esperança mas pelo menos agora já somos livres", afirmou.

Depois de permanecer em Baucau cerca de duas horas - durante as quais os refugiados passaram por pequenos exames médicos - o avião da Air Macau seguiu para Darwin, de onde regressa ainda hoje a Macau.

Lusa/Fim