REPORTAGEM: Filas para a primeira viagem do metro ligeiro de Macau
*** Vítor Quintã, da agência Lusa ***
Macau, China, 10 dez 2019 (Lusa) -- Milhares de pessoas fizeram fila hoje para estrear o metro ligeiro de Macau, mas ainda assim deixaram críticas ao projeto, que demorou mais de uma década a sair do papel.
Lau foi o primeiro a chegar, pouco passava da uma da tarde, ao terminal marítimo da Taipa, de onde partiu a primeira combinação. "Estou orgulhoso por ter esta oportunidade de ser a primeira pessoa a apanhar o metro. Estou bastante entusiasmado", confessou o jovem nascido em Macau.
A fila foi crescendo atrás dele, com trabalhadores da Sociedade do Metro Ligeiro de Macau, S.A. a distribuir panfletos -- apenas disponíveis em chinês -- com informações sobre o novo meio de transporte.
Quando faltavam 10 minutos para a viagem inicial, altura em que abriram as portas da estação, a fila já se estendia por mais de meio quilómetro. Cenas que se repetiram, em menor dimensão, nas outras 10 estações da primeira linha do metro ligeiro.
Enquanto esperava pacientemente pela sua vez de embarcar, Jiang ia trocando mensagens com os colegas. O chinês natural de Shandong veio para Macau há alguns anos para ajudar a desenhar o sistema de bilheteira do metro ligeiro.
"Está toda a gente muito feliz. Foram anos de muito trabalho", sublinhou.
Às 15:33 minutos arrancou a primeira combinação do metro ligeiro, com duas carruagens. Um "minuto auspicioso", disse o secretário para as Obras Públicas e Transportes, Raimundo do Rosário, explicando "com o facto de em cantonense três ter um som semelhante a vida".
No entanto, o governante lusodescendente confessou que estava "preocupado ou apreensivo, porque não deixa de ser a primeira vez".
Após mais uma década de espera, oito anos de obras e derrapagens orçamentais, também na estreia do metro ligeiro nem tudo correu bem.
Numa das estações ainda havia vestígios das obras, incluindo martelos esquecidos num canto. Alguns passageiros queixaram-se também de que as carruagens abanavam muito, sobretudo nas curvas da linha.
"Cometemos erros e conhecemos as nossas insuficiências, mas acumularam-se muitas experiências valiosas que servem de referências relevantes para a execução das construções posteriores", prometeu o presidente da Sociedade do Metro Ligeiro de Macau, S.A., Ho Cheong Kei, durante a cerimónia de entrada em funcionamento do metro ligeiro.
O presidente da Autoridade de Aviação Civil de Macau, Simon Chan Weng Hong, destacou à Lusa o percurso "muito conveniente" porque passa por alguns dos principais casinos situados no Cotai, faixa de casinos entre a Taipa e Coloane. "É aí que a maioria dos turistas vai ficar", sublinhou.
Alguns residentes temem que o metro ligeiro sirva apenas para os visitantes. Lam vive em Iao Hon, no norte da península de Macau, o bairro com maior densidade populacional da cidade, mas que está longe das novas linhas de metro propostas pelo Governo.
Ainda assim, a sexagenária não perde o otimismo que a fez vir até à Taipa. "Mesmo que só seja para levar os turistas para os casinos, já ajuda. Pode ser que haja menos carros na estrada e os autocarros fiquem menos apinhados", considerou.
Ho está mais satisfeita. Afinal, hoje saiu do empreendimento integrado onde trabalha como supervisora de jogo, no Cotai, e apanhou logo o metro até casa, no bairro do Ocean Garden. E até ao fim do mês as viagens são gratuitas.
Mas a residente não esquece os obstáculos que marcaram a construção do metro. "Esta cidade tem tanto dinheiro e não consegue construir nada a tempo e horas", lamentou, dando como exemplo o Hospital da Taipa, cuja abertura estava inicialmente prevista para 2014, mas que continua ainda em construção.
Problemas que não diminuem o entusiasmo de Dou que, apesar de já ter ultrapassado os 80 anos, mudou de autocarro duas vezes para vir à viagem inaugural, com uma bandeira chinesa na mão. "A abertura do metro é algo muito importante para as pessoas de Macau", disse.
"E se calhar ainda vamos ver o Tio Xi [Jinping, Presidente chinês] a andar de metro", acrescentou Dou, com um sorriso.
A presença do líder chinês é esperada nas comemorações do 20.º aniversário da transferência para a China do território administrado por Portugal, em 20 de dezembro próximo, coincidindo com a posse do novo chefe do Governo, Ho Iat Seng.
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