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Macau/99: Transferência para a China “não destrói história” de Macau – PR

Arquivo Lusa 1999

Macau, 19 Dez (Lusa) - O Presidente da República afirmou hoje, em Macau, que a transferência de poderes "muda as soberanias sobre os lugares, mas não destrói a sua História".

Jorge Sampaio, que intervinha na sessão cultural das cerimónias de transferência da administração do território para a China, sublinhou que dessa história "partilham, por igual, Portugal e  Macau".

"É por isso que o futuro Consulado-Geral de Portugal será, sem dúvida, a casa de todos os portugueses de Macau. (...) e também símbolo activo da permanente disponibilidade de Portugal para  cooperar, com os novos poderes e com as gentes da terra, na preservação da identidade de Macau e da sua maneira de viver", referiu.

Para Jorge Sampaio, "é em tudo isto que Portugal, partindo, fica. Sem os atributos da soberania, é certo, mas com responsabilidades, firmadas na história, de manter com Macau o encontro de povos e de culturas que fez desta terra um paradigma singular".

"Cruzámos os mares das sete partidas, com os sucessos e as desventuras de quem ousa". E, citando Fernando Pessoa, o chefe de Estado disse que "para chegarmos ao mundo desconhecido, quantas mães choraram, quantos filhos em vão rezaram, quantas noivas ficaram por casar ".

Para Sampaio, "é bom que seja em Macau, onde se cumpre de modo tão exemplar o sentido universalista das Descobertas, que possa ser dita a palavra que apazigua e dá verdadeiro sentido à longa viagem que em cinco séculos empreendemos e aqui se completa - valeu a pena".

O Presidente da República considerou que o estatuto especial de autonomia, "fundado no Estado de Direito, com que o território vai entrar no próximo milénio", constitui "um poderoso desafio a Macau e às suas gentes".

"Que fique claro, todavia, que se a administração portuguesa cessa, Portugal não parte. Fica apenas de modo diverso, para acompanhar Macau no seu percurso sob novos poderes de uma nova  soberania", acentuou.

O último governador do território, Rocha Vieira, salientou que, no século XVI, "quando a ousadia dos navegadores do extremo ocidental da Europa os trouxe até ao grande Império do Meio, não  havia senão o desejo de encontro, a vontade do entendimento. Não havia, não podia haver, confronto e hostilidade, vontade de domínio ou espírito colonial".

"Macau, que gerou dentro de si a Região Administrativa Especial (RAEM), pode justamente orgulhar-se de ficar como o monumento vivo, multissecular, que transporta para sempre a memória do nosso primeiro encontro e o projecta no futuro distante", acrescentou.

Rocha Vieira pediu "que a fortuna e a virtude acompanhem" o chefe do executivo da RAEM, Edmund Ho, e os outros membros do novo governo.

Na sessão cultural, à qual terão assistido mais de 2.000 pessoas, actuaram Dulce Pontes, Rão Kyao e Luís Represas, além do cantor macaense Miro (que foi assessor do ex-secretário adjunto de  Macau Jorge Rangel) e da chinesa Chon Chun Wa.

Passaram ainda pelo palco o guitarrista António Chaínho, a Orquestra Chinesa de Macau e a Orquestra de Câmara de Macau.

A sessão, em que participaram centenas de crianças de escolas locais e que incluiu danças e cantares portugueses, além de poesia e artes marciais, terminou com a dança do dragão, tradicional no sul da China.

Lusa/Fim