Macau/99: Transferência abre novo ciclo de relacionamento
Arquivo Lusa 1999
Hong Kong, 10 Nov (Lusa) - A transferência da administração de Macau de Portugal para a China é um "ponto de viragem para um novo ciclo de relacionamento" e não o "fim de uma presença", defendeu hoje, em Hong Kong, o responsável do governo do território pelos assuntos da transferência.
"Portugal deixa em Macau não apenas as pedras das igrejas, das fortalezas e dos monumentos, mas também um território com infraestruturas modernas e um modo de vida em que as liberdades e garantias dos indivíduos são valores essenciais cultivados pelos cidadãos", afirmou Jorge Rangel, secretário-adjunto para a Administração, Educação e Juventude.
Jorge Rangel, que foi nomeado coordenador do governo de Macau para os assuntos da transferência de poderes, falava no Clube de Correspondentes Estrangeiros de Hong Kong, numa apresentação a jornalistas locais e estrangeiros dos planos das cerimónias da transferência da administração de Macau.
Jorge Rangel disse que o espectáculo cultural que iniciará o programa "não será uma festa de despedida (de Portugal) nem uma festa de recepção (da China)".
"Será um momento de afirmação da identidade, do sentido e da singularidade de Macau e de confiança no futuro.
"Portugal administra Macau há cerca de 450 anos. Num clima de tolerância foi criado um lugar único, onde a arte do consenso e do equilíbrio, da sabedoria, da co-existência e do respeito mútuo é uma realidade há séculos", afirmou.
Jorge Rangel adiantou que Portugal está também empenhado em "manter uma presença em Macau" para lá da transferência da administração, referindo a existência da Escola Portuguesa de Macau e o futuro Centro Cultural Português de Macau.
Interrogado sobre a situação financeira em que Macau chega à transferência de poderes, o secretário-adjunto classificou-a de "confortável", referindo que a administração portuguesa deixará para a futura Região Administrativa de Macau "cerca de um ano de orçamento" nas reservas financeiras constituídas pelo Fundo de Terras que já ultrapassa os oito mil milhões de patacas.
"Macau será entregue à China sem dívida, com reservas adequadas e com um orçamento excedentário, ao mesmo tempo que foi possível concretizar um vasto plano de construção de infraestruturas para o futuro", de que o Aeroporto Internacional é a mais importante, disse.
Referindo-se aos problemas gerados pela actividade do crime organizado em Macau, Jorge Rangel disse que a luta contra o crime organizado é uma "prioridade" da actual administração, não se "podendo pensar que a criminalidade irá desaparecer com a transferência da administração, pelo terá de permanecer uma prioridade da futura administração".
"A taxa de criminalidade em Macau é de cerca de cinco crimes violentos por cada 100.000 habitantes, mas a notoriedade dada ao crime organizado pela imprensa internacional exagerou a situação no seu conjunto", adiantou.
O membro do actual governo de Macau manifestou ainda o seu apoio em relação à escolha de Edmund Ho Hau Wah para o cargo de chefe do executivo da Região.
Edmund Ho Hau Wah foi a "melhor escolha", sendo um "moderado, um homem que conhece o Mundo e o mundo de Macau, sabe o significado das liberdades e garantias e entende também o encontro de culturas que existe em Macau", afirmou Jorge Rangel.
Jorge Rangel concluiu com um apelo aos jornalistas estrangeiros, referindo que a atenção continuada da imprensa internacional sobre o período que virá depois do momento da transferência de poderes será um garante do cumprimento das promessas de autonomia sobre as quais assenta o futuro do território.
"Macau só poderá ser autónomo se continuar a ser diferente", disse Jorge Rangel.
Lusa/Fim