icon-ham
haitong

Macau/99: Portugueses que ficam recusam o pessimismo

Arquivo Lusa 1999

Macau, 08 Dez (Lusa) - Se é nos momentos difíceis que se conhecem os heróis, então os portugueses que permanecem em Macau são os verdadeiros heróis de uma história de séculos. São eles os poucos  verdadeiros optimistas no tempo de todas as incertezas.

Os portugueses que decidiram continuar em Macau vão pôr "todos os ovos no mesmo cesto" para continuar a viver numa terra que amam e nem sequer encaram isso como um sacrifício. É que as dúvidas sobre o futuro são poucas, e as que existem não chegam para abalar vontades de ferro.

"Os chineses não são mais incapazes que os portugueses. Se nós governámos Macau durante 400 anos, eles também hão-de conseguir", diz José Bento, 71 anos, português da Beira Baixa chegado a Macau em 22 de Setembro de 1951.

A história de José Bento é a mesma dos seus parceiros de mesa na sala de convívio dos reformados da Polícia de Segurança Pública de Macau e de quase todos os portugueses que moram há décadas no  território.

José Rodrigues, Manuel Bilhe e Manuel Cordeiro chegaram a Macau para cumprir o serviço militar. Por aqui casaram com mulheres chinesas e foram criando família. Em casa só falam chinês e garantem ter mais amigos chineses que portugueses. São parte integrante da terra e lembram-se de ver crescer Edmund Ho, o chefe do executivo da futura Região Administrativa Especial de Macau (RAEM).

"Edmund Ho é uma boa escolha, é o homem mais indicado para liderar o governo. Lembro-me dele desde pequeno, ao lado do pai, que foi até à morte o líder da comunidade chinesa em Macau. O pai sempre foi grande amigo dos portugueses e ele também gosta de nós. Nunca nos vai tratar mal, ou virar as costas", diz Manuel Cordeiro.

Mesmo que estes homens quisessem voltar para Portugal, já era tarde. A família está cá, os filhos já lhes deram netos que nem sequer falam português. O medo de passar a viver longe da família fala mais alto, o cordão umbilical com Portugal vai sendo cortado aos poucos, e eles sabem-no bem.

"Já não haverá mais portugueses, os que cá estamos somos os últimos", diz José Rodrigues. "A geração que nasce agora já não fala português, só inglês e chinês, e só os que vão regularmente a Portugal é que gostam do país", adianta Manuel Cordeiro.

"De Portugal, interessa-lhes a comida, e, até certo ponto, o futebol", concluem os homens sentados à mesa do café. Pela cultura portuguesa, depreende-se, o interesse é nulo. Política ou literatura, deduz-se, nem pensar.

O cenário é diferente entre as novas gerações de portugueses que decidiram ficar em Macau. Tiago Guerra, 28 anos, engenheiro da Portugal Telecom (PT), diz que não se vai embora porque tem  "oportunidades de desenvolver projectos que não surgiriam noutro sítio".

"Apesar da barreira da língua, foi fácil a integração junto da comunidade chinesa", diz Tiago Guerra, que garante só ter razões para estar optimista quanto ao futuro.

"Edmund Ho tem sempre sido um bom parceiro dos portugueses.

Além disso, as coisas em Macau não serão muito diferentes, poderá haver menos portugueses, mas os que ficam estão definitivamente empenhados na vida do território", vaticina.

O engenheiro da PT é um caso isolado entre os quadros portugueses no território. A iniciativa privada de Portugal em Macau é pouca e os profissionais com maiores habilitações foram sendo absorvidos pela função pública.

"Aquilo que foi acabando com a presença portuguesa foi o processo de integração", diz um advogado de Macau, criticando a abertura de vagas na função pública portuguesa para os funcionários público do quadro de Macau.

Em cerca de dois anos, 994 pessoas abandonaram o território, uma "sangria" numa comunidade que conta com quatro mil pessoas, na melhor das hipóteses.

O número de portugueses que no dia 20 vão acordar debaixo de bandeira chinesa é uma das maiores incógnitas de todo o processo de transição.

"Como especulação, poderia dizer que a comunidade lusófona de Macau contará com cerca de três ou quatro mil pessoas", diz Carlos Frota, o futuro cônsul-geral de Portugal em Macau. Mas Frota concede  que "há quem diga que estas são as expectativas mais optimistas".

À porta do recém-restaurado edifício colonial do antigo Hospital de S. Rafael, onde ficará instalado o consulado-geral de Portugal, e ao antigo hotel de luxo que servirá de residência consular, um português que reside há décadas em Macau queixa-se de que "o consulado de Portugal em Macau tem magníficas instalações, mas não foi capaz de encomendar uma estatística para saber quantos portugueses vão ficar no território".

Lusa/Fim