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Macau/99: Português de origem chinesa chefia guarda de honra de Portugal

Arquivo Lusa 1999

+++ Por José Santos, da agência Lusa +++

Macau, 18 Dez (Lusa) - Aos 26 anos, Telmo Lau Hing, português de origem chinesa, tem a responsabilidade de comandar no domingo os 36 cadetes dos três ramos das Forças Armadas que participarão na cerimónia de transferência da Administração de Macau para a China.

Apesar da sua juventude, Telmo Lau Hing impõe a sua autoridade de Tenente de Infantaria aos cadetes que dirige e as suas feições orientais deixam perceber que os seus antepassados integraram um dos grupos de chineses do sul que foram tentar a sorte para as antigas colónias portuguesas de África.

Nascido em Lourenço Marques, Telmo não esquece a sua origem cantonense (Cantão é a capital da província chinesa de Guangdong no sul do país) e quando entrar no palco à frente dos cadetes que dirige talvez cause - devido às suas feições - surpresa e admiração no público presente.

A cerimónia em que irá participar, importante para Portugal e para a China - os Estados que marcam a sua existência -, não lhe causa quaisquer dificuldades porque está a "cumprir uma missão onde não cabem sentimentos".

"Enquanto estamos a treinar e durante a cerimónia não há tempo para pensar em sentimentos, mas depois, quando tudo acabar, tenho a certeza que terei pena que Portugal deixe de administrar Macau", disse, em declarações à Agência Lusa.

Telmo Lau Hing referiu ainda que "sente honra" em participar na cerimónia e que os tios e primos que tem no território "sentem orgulho" na sua presença.

Orgulho e pena são os sentimentos mais comuns entre os portugueses que participam domingo na cerimónia de transferência da Administração portuguesa de Macau para a China.

"Orgulho" porque estão entre os eleitos que representam Portugal num acto de Estado e podem assistir a um dos mais importantes momentos da história portuguesa dos últimos anos. "Pena"  porque serão os intervenientes no momento em que o país deixa o último pedaço de terra que administra fora de portas.

Para o cadete Saldanha Junceiro, que irá arriar a bandeira portuguesa às 23 horas, 57 minutos e 40 segundos de domingo, enquanto soará na sala o hino nacional, a participação na cerimónia "é uma honra", mas sabe que na hora de "baixar a sério" a bandeira do mastro principal do lado português vai sentir "alguma nostalgia".

No entanto, assinala, a sua participação faz-lhe sentir uma "grande honra" porque vai integrar um grupo restrito de pessoas que irá ser testemunha activa de um "marco histórico para Portugal e  Macau".

Ao lado do Saldanha Junceiro estarão ainda mais dois cadetes, do Exército e da Força Aérea, que irão ter a responsabilidade de dobrar a bandeira.

Pouco depois do arriar das bandeiras de Portugal e do Leal Senado, e depois de uma pausa para que o relógio chegue às 00:00 horas de 20 de Dezembro, será a vez da bandeira chinesa e da Região Administrativa Especial de Macau (RAEM) subirem nos mastros e flutuarem ao sabor do vento criado artificialmente.

Cheng Kam Cheong, guarda-ajudante na secção de trânsito da Polícia de Segurança Pública há 12 anos, vai ter a responsabilidade de fazer subir a bandeira da RAEM e sente-se "contente, feliz e  orgulhoso" por participar na cerimónia em que será transferida a Administração do território para a China.

A primeira voz lusitana a ser ouvida no acto solene será, no entanto, a do embaixador Eurico Pais - que assumirá o papel de "mestre de cerimónias na ocasião" - , e soará nas colunas de som  cerca das 23:40 para anunciar a entrada dos principais dignitários dos dois países.

Jorge Sampaio e Jiang Zemin lideram o quinteto de personalidades de cada país que dará entrada no palco por corredores separados, mas ao mesmo tempo, e que inclui ainda, do lado de  Portugal, António Guterres, Jaime Gama, Narana Coissoró e Rocha Vieira, e, do lado da China, Zhu Ronji, Qian Qichen, Tang Jiaxuan e Edmund Ho Hau Wah.

Funcionário do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Eurico Pais está em Macau por designação do ministro Jaime Gama e é responsável pelas questões do protocolo de Estado na cerimónia de  transferência da Administração. Trabalho que, sublinhou à Lusa, tem sido "executado em total acordo com a parte chinesa".

As funções que vai desempenhar por escassos 30 minutos, depois de semanas a ensaiar e corrigir pequenos detalhes para que tudo corra bem, fazem com que Eurico Pais sinta "uma enorme honra" conjugada com a certeza de que vai ter "uma responsabilidade muito grande".

"A função formal que vou ter não deixa de ter um significado profundo para mim como pessoa", disse o embaixador, salientando também que no domingo "sentirá o mesmo que a generalidade dos portugueses patrióticos" porque não esquece que "é a última saída de Portugal de uma terra que administra para além do território nacional".

"É uma tarefa que nunca fiz e nunca voltarei a fazer", salientou o diplomata ao destacar também que num momento solene como o que vai presenciar "há sempre factores sentimentais e emocionais".

Eurico Pais manifestou-se ainda convicto de que, apesar da mudança das bandeiras, no futuro "não irá haver diferenças especiais" para os portugueses que irão continuar no território.

E enquanto não entram os altos dignitários de cada país, e a partir do momento em que as portas do pavilhão forem abertas para os convidados, as bandas portuguesa e chinesa irão tocar diversas  melodias alternadamente.

Enveredando trajes inspirados nas fardas usadas no século XIX, os músicos portugueses tocam, entre as 22:50 e as 23:39 de domingo, Cantigas à Moda Antiga, Marcha Militar número 3, Coral Alentejano, Marcha pela lei e pela Grei, Malhão de Águeda e Marcha ingénua.

No final da cerimónia, enquanto saem os dois presidentes, será ouvida a Canção do Mar durante três minutos e cinco segundos.

E quando o relógio marcar 15 minutos depois da meia-noite, os 46 músicos portugueses, dos quais duas mulheres, irão tocar temas da Beira Baixa, Cidade Invicta, Rabela do Douro e Galveias.

Lusa/Fim