Macau/99: Património reabilitado perpetua presença lusa no Extremo Oriente
Arquivo Lusa 1999
+ + + Por Casimiro Simões, da Agência Lusa + + +
Macau, 13 Dez (Lusa) -- Venerado em todo o mundo, o português Santo António tem lugar cativo no imaginário cristão de Macau, onde a igreja com o seu nome é um dos muitos imóveis que perpetuarão a presença lusa no Extremo Oriente.
O frade de Lisboa, que estudou em Coimbra antes de uma tempestade o ter arrastado para Itália, é todos os anos alvo em Macau de um tributo simbólico muito curioso, devido à sua condição de santo militar e capitão do Exército Português.
A 13 de Junho, no dia em que milhares de pessoas em Portugal, Brasil e nas mais recônditas paragens saem à rua para louvar o santo, o presidente do Leal Senado de Macau entrega-lhe o soldo em dívida por um ano de protecção e combate sem tréguas.
Entre cantorias, comentários brejeiros dos devotos e o pagamento de promessas, a popular imagem do frade franciscano com o menino ao colo segue em procissão, ao redor da própria Igreja de Santo António e até ao Largo de Camões.
A tradição portuguesa repete-se ano após ano, apesar das tropas "coloniais" terem saído da cidade há quase um quarto de século. Dentro de dias é a vez do Exército Popular de Libertação "resgatar" o território para a República Popular da China (RPC).
Conhecidas que são, também, as suas virtudes na ajuda aos mais fracos e o seu poder de recuperar objectos perdidos, de que lado estará Santo António após 19 de Dezembro?
Numa terra em que, numa população superior a 400 mil almas, apenas cerca de 20 mil seguem a Igreja de Roma, talvez o milagreiro lisboeta opte por apoiar a preservação do património histórico e arquitectónico de Macau, uma causa em que a administração portuguesa investiu mais de 150 milhões de patacas nos últimos anos.
Estão classificadas e protegidos por lei mais de 250 imóveis e conjuntos urbanos. Foram recuperados, entre outros, duas fortalezas, mais de 20 igrejas católicas e templos chineses, diversas construções de valor arquitectónico e 11 conjuntos classificados.
O governo de Macau diligenciou junto da UNESCO no sentido de o centro histórico da cidade ser classificado como Património da Humanidade.
As autoridades de Pequim têm também reafirmado a importância de preservar o património do território, que resultou da convivência de portugueses, chineses e outros povos ao longo dos séculos.
Os jesuítas reivindicam um papel decisivo na fundação da Cidade do Nome de Deus desde 1557, data em que construíram a sua primeira ermida em Macau, perto da actual Igreja Paroquial de Santo António.
O presidente do Instituto Cultural de Macau (ICM), Wang Zeng Yang, realça o esforço financeiro do governo na preservação e valorização do património, para fruição de residentes e visitantes, embora também aqui o fenómeno da construção em altura, preenchendo todos os palmos de terra ainda disponíveis, tenha produzido estragos irreparáveis.
Mas é esta identidade, o que resistiu ao impiedoso camartelo, que distingue positivamente Macau de outros aglomerados urbanos do Delta do Rio das Pérolas, em especial de Hong Kong, onde os testemunhos arquitectónicos mais antigos desapareceram quase em absoluto.
"O património arquitectónico é extremamente importante a vários níveis, estes edifícios marcam a cidade e já se tornaram um valor cultural e espiritual", declarou Wang Zeng Yang à Agência Lusa.
O presidente do ICM é um chinês oriundo do norte do Império do Meio que ocupa o cargo há cerca de um ano, na sequência do processo de localização de quadros da administração pública.
Wang, ex-professor de português na Universidade de Macau, fala a língua de Camões com uma perfeição de fazer inveja à grande maioria dos titulares locais de passaporte emitido por Portugal.
O ex-líbris de Macau é e continuará a ser, em qualquer parte do mundo, a Igreja de S. Paulo, as ruínas que restam do maior templo cristão do território, erguido em 1602 pelos Jesuítas.
Foi no Colégio Jesuíta de S. Paulo, contíguo à igreja, o primeiro estabelecimento de ensino ocidental no Extremo Oriente-, que estudaram missionários como Mateus Ricci e Adam Schall antes de trabalharem na corte Ming, em Pequim, como astrónomos e matemáticos.
Após a expulsão dos Jesuítas em 1767, por um decreto do Marquês de Pombal, o colégio funcionou como quartel e, em 1835, um incêndio destruiu o colégio e o corpo da igreja, que eram feitos em "taipa" e madeira.
A fachada da Igreja de S. Paulo resistiu ao tempo e à acção dos homens, erguendo-se na colina como legado de um singular encontro de culturas e da tolerância religiosa.
No imponente conjunto de pedras e nichos de granito, coabitam estátuas da Virgem e de santos, símbolos do Paraíso e da Crucificação, anjos e o demónio, um dragão chinês e um crisântemo japonês, uma caravela portuguesa e inscrições religiosas em chinês.
"As gentes de Macau não poderiam viver sem as ruínas de S. Paulo", afirmou o presidente do Instituto de Cultura.
Um pouco por todo o território e na China continental, a fachada de S. Paulo, essa, "está em todas".
Ao fundo das escadas de S. Paulo, uma loja de "souvenirs" aproveita a onda consumista que precede o "regresso de Macau à pátria" para engrossar as receitas. As palavras de ordem, mais ou menos patrióticas, revelam nalguns casos alguma intolerância e triunfalismo oportunista, como acontece nesse estabelecimento, onde se vende uma "T-shirt" que representa um operário chinês, sobre um andaime, a cobrir com tinta vermelha (a bandeira da RPC) as ruínas de S. Paulo.
A Igreja de S. Paulo, que inspirou o Pavilhão de Macau na Expo-98, em Lisboa, é "um elemento de união e comunhão de toda a população, independentemente da religião e do tempo de vivência nesta cidade", considera Wang Zeng Yang.
"O facto de ter sido mantida uma parte importante do património do território -- refere - é uma sorte para os seus habitantes. Aqui não aconteceu o mesmo que em Hong Kong, mas isto resulta de um trabalho consciente".
Reconhece que Hong Kong "tem muita coisa, como capitais, e serviços, mas com a crise asiática as pessoas acordaram de manhã a pensar que, afinal, não têm nada".
"Macau não tem dinheiro, mas tem a própria cidade, com os seus jardins, igrejas, templos chineses, museus e conjuntos urbanísticos - como o Largo do Senado -, uma identidade abstracta e concreta ao mesmo tempo, capaz de assegurar boas receitas do turismo", sublinha o presidente do ICM.
Wang sustenta que "Macau tem um cheiro europeu, mas não é da Europa do norte, é antes da Europa mediterrânica. O território é importante para a China pela sua diferença".
"Façam desaparecer as Portas do Cerco (a fronteira) e verão o que acontece. Basta ir aqui ao lado, a Zhuhai, para sentir nas ruas essa diferença em termos de ambiente humano", exemplifica.
O arquitecto Vicente Bravo, autor do pavilhão onde vão decorrer, no dia 19, as cerimónias oficiais da transferência de poderes, congratula-se com a preservação de uma parte significativa da Macau antiga.
"A cidade começou há 25 anos a sofrer pressões imobiliárias que estiveram na origem de danos irrecuperáveis", declarou, admitindo que "o boom da construção apanhou desprevenida a administração do território", que não dispunha ainda dos indispensáveis instrumentos urbanísticos.
Ainda assim, anos mais tarde, "o governo acabou por se comportar como um privado" no processo dos Novos Aterros do Porto Exterior (NAPE), uma zona onde predominam edifícios com um média de 20 andares e que Vicente Bravo classifica como "cidade fantasma".
"Devido às pressões, o plano inicial foi subvertido, as ruas ficaram estreitas e mal orientadas em termos de iluminação natural.
Este é um dos piores exemplos do planeamento e houve o grande erro de pensar que isto seria útil para Macau", criticou o arquitecto.
Também por isso o património que resistiu ao avanço do betão armado pode ser no futuro uma confortável tábua de salvação na continuidade da nova Região Administrativa Especial de Macau como lugar ao sol no grande regaço da pátria chinesa.
Lusa/Fim