Macau/99: O futuro da pataca sob a fórmula chinesa “um país, duas moedas”
Arquivo Lusa 1999
+ + + Por Ian Whiteley, da Agência Lusa + + +
Macau, 03 Dec (Lusa) - Uma lembrança da longa presença portuguesa em Macau continuará a ser encontrada no bolso de quase todos os residentes no território depois da transferência da administração para a China.
A pataca, a moeda de Macau introduzida pela primeira vez em 1901, continuará em circulação depois do retorno do território à China, à meia-noite de 19 de Dezembro.
A China não tenciona pôr fim à moeda macaense com as suas inscrições singulares em chinês e português e cenas pitorescas do território.
De acordo com a fórmula "Um País, Dois Sistemas", e em particular com o artigo 108 da Lei Básica da futura Região Administrativa Especial de Macau (RAEM), a pataca continuará a ser a moeda oficial do território.
A sua livre convertibilidade é também garantida pelo artigo 109 da Lei Básica, a mini-constituição que regerá Macau depois da transferência de poderes.
A situação é similar à de Hong Kong, onde o dólar local, introduzido pela primeira vez em 1860 pela Grã-Bretanha, continua a ser a moeda oficial e cujo futuro está consagrado na Lei Básica deste território, que é uma Região Administrativa Especial da República Popular da China desde 01 de Julho de 1997.
Depois da crise dos mercados monetários em Outubro de 1983, o dólar de Hong Kong foi indexado ao dólar norte-americano, levando a pataca a ser considerada como indirectamente ligada ao dólar norte-americano, já que tem uma taxa cambial fixa com a moeda de Hong Kong.
Esta condição acaba por tranquilizar aqueles que recebem os salários e têm rendimentos em patacas e que testemunharam o colapso de outras moedas asiáticas durante a recente crise económica na região.
Até 1977, a pataca esteve ligada ao escudo português ao câmbio de uma pataca para cada cinco escudos. Mas em 7 de Abril de 1977, e depois da entrada da economia portuguesa num período recessivo, o governo de Macau decidiu pôr fim à ligação com o escudo. Como a economia local estava cada vez mais interligada com a de Hong Kong, passou a associar a pataca ao dólar do território vizinho.
Mas, por mais surpreendente que possa parecer para algumas pessoas, a pataca não é portuguesa. Segundo Felix Pontes, director-executivo da Autoridade Monetária e Cambial de Macau, a pataca "tornou-se na moeda local depois de os comerciantes espanhóis no Extremo Oriente terem utilizado uma moeda de prata nas Filipinas a que os portugueses chamavam pataca mexicana ".
"Antes disso, circulavam em Macau lingotes e moedas de prata Chineses conhecidas como pangtans em conjunto com outras moedas estrangeiras", esclarece.
Felix Pontes adianta que quando foram introduzidas pela primeira vez, as notas em patacas não foram bem aceites, devido a uma falta de confiança na nova moeda.
"Mas em 1929, numa medida para persuadir a população local a habituar-se à pataca, o governo de Macau proibiu a circulação de moeda estrangeira no território, e a partir daí a pataca institucionalizou-se", afirma.
Hoje em dia, a moeda é usada em todo território, apesar de muitas lojas, restaurantes e até motoristas de táxi se manterem fiéis à antiga tradição e aceitarem dólares de Hong Kong e, a um certo grau, ainda que mais reduzido, renminbi chineses.
A partir de 1995, a emissão da pataca passou a ser feita conjuntamente pelo Banco da China e pelo Banco Nacional Ultramarino (BNU) até então o único banco emissor da moeda de Macau.
Os dois bancos apresentaram recentemente um novo "design" para as notas em patacas de modo a reflectir a transferência da administração do território para a China e o novo milénio.
Por enquanto, ainda não existem planos para alterar o "design" das moedas, em cujas faces estão gravadas imagens de monumentos famosos do território construídos durante a administração portuguesa, como o farol mais antigo da Ásia, na colina da Guia, e as ruínas da catedral e São Paulo, o mais conhecido ponto turístico de Macau.
Os símbolos nacionais portugueses, incluindo o escudo das quinas, foram removidos das moedas de cinco patacas em 1992 e de outras moedas e notas em 1993.
As moedas de Macau, incluindo as lançadas em ocasiões comemorativas, são produzidas pela britânica Royal Mint, embora as moedas emitidas para celebrar a transferência da administração do território tenham sido encomendadas à Royal Mint canadiana.
Se os coleccionadores irão acorrer em massa para comprar estas missões especiais, tal como as moedas e notas com símbolos e inscrições em português, continua por se saber.
Hong Kong passou por um período de escassez de moeda quando coleccionadores e especuladores começaram a acumular moedas do período colonial gravadas com imagens da rainha, ao mesmo tempo que novas moedas eram lançadas com o novo símbolo da Região Administrativa Especial de Hong Kong, a flor bauhinia.
De qualquer modo, nas zonas comerciais de Macau, a maior parte dos lojistas não parece preocupar-se com a cor do dinheiro.
Se é púrpura, azul e amarelo - como a pataca -, ou verde, vermelho e cor-de-laranja - como o dólar de Hong Kong -, a maior parte das lojas, restaurantes e até táxis aceitam com prazer qualquer uma das moedas, fazendo ajustamentos para a peque na diferença entre pataca e o dólar de Hong Kong (103 patacas = 100 dólares de HK).
"Sem problema", diz o taxista quando lhe passam para a mão uma nota de Hong Kong para pagar a viagem. "Para mim, é tudo o mesmo", diz, atirando a nota para dentro de uma lata. "Desde que possa gastar, aceito o que quer que seja".
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