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Macau/99: Leal Senado muda de nome enquanto população recebe com júbilo a RAEM

Arquivo Lusa 1999

+++ Por Rui Boavida, da agência Lusa +++

Macau, China, 20 Dez (Lusa) - Os primeiros minutos da Região Administrativa Especial de Macau (RAEM) foram recebidos com gritos de júbilo pelos milhares de pessoas que assistiam às cerimónias da transferência da administração num ecrã gigante, na Praça do Leal Senado, o coração da cidade.

Mal se iniciou a cerimónia de transferência de poderes, milhares de pessoas gritaram e acenaram, manifestações que se repetiram no início e no fim do discurso do presidente português,Jorge Sampaio, quando desceu a bandeira portuguesa no mastro do edifício onde decorreu a cerimónia, quando se iniciou a subida do pavilhão da China e no princípio e no fim do discurso do presidente chinês Jiang Zemin.

Minutos depois da bandeira verde da RAEM ondular pela primeira vez nos céus de Macau, operários no Leal Senado fizeram subir, ao som de gritos e acenos de alegria, uma enorme tela com o novo brasão da edilidade que cobre o escudo anterior.

O novo brasão, da autoria de Guilherme Ng Wai Meng, mantém a cor azul do município, só que agora mais escuro, mas substitui os anjos por duas pombas e a esfera armilar pela flor de Lótus.

O Leal Senado é a partir de hoje a Câmara Municipal Provisória de Macau, ficando o seu futuro adiado até ao final do ano de 2001.

Ainda a bandeira portuguesa não tinha sido dobrada na cerimónia oficial, subiu no telhado do edifício dos Correios e Telecomunicações (CTT) a primeira bandeira da RAEM que se observou na praça.

A subida começou enredada, mas segundos depois já a bandeira verde flutuava no ar. Passava já da meia-noite, mas o relógio dos CTT batia ainda as 23:55, a hora pré-RAEM.

Pisando a calçada portuguesa da praça e passeando debaixo das arcadas de traça portuguesa, Josephine Ng, 24 anos, vestia roupa de festa e estava feliz.

''Sinto-me bem, penso que os portugueses nunca foram grandes administradores, e tenho esperança de que o governo chinês possa fazer melhor'', explicou Josephine, adiantando que ''a China é a mãe de Macau".

Sofia Lopes, 20 anos, que abandonava a praça do Leal Senado lavada em lágrimas e que viveu em Macau mais de 10 anos, disse à agência Lusa não ter palavras para explicar a tristeza: "sempre achei que Macau era a minha terra e agora é difícil pensar o mesmo.''

Pouco depois da RAEM ser uma realidade já a festa tinha morrido, porque, como defendia Herculano Jacinto, macaense, 47 anos, era ''algo que se esperava há muito tempo".

"Sinto-me de luto, mas quanto ao acontecimento em si, estava mais do que preparado. Sinto-me de luto desde que soube que Macau ia ser entregue à China'', disse.

Muitos dos mais de 40 por cento de chineses que vivem em Macau há menos de 14 anos estavam mais de acordo com o espírito de alegria e optimismo que se vivia na praça.

Leong Hoi Man, 38 anos, em Macau há dois, não deixou de lembrar que o território ''estava ocupado há mais de 400 anos e agora eles vão-se embora. Para além disso, agora Macau pode ser governado pela própria população.''

Apesar de alguns ressentimentos, os portugueses deixam ainda saudades em alguns residentes de Macau.

Elsa Tam chorava ao ver a bandeira portuguesa baixar, em grande parte porque ''os portugueses estiveram cá mais de 400 anos, e nós já estávamos habituados. Apesar de tudo, deixam boas memórias''.

Pouco depois da uma hora da manhã de segunda-feira, já o escudo da RAEM tinha substituído o português, mas na sede do Banco Nacional Ultramarino a bandeira portuguesa estava ainda içada, só que agora por baixo do estandarte da RAEM.

Abandonado no meio da festa a um canto da praça do Leal Senado, um pinheiro de Natal tinha pendurado um jogo de luzes que tocavam a música ''O Pai Natal está a chegar à cidade''. Só que não é o Pai Natal, são as tropas chinesas, agora que os novos senhores já deram entrada na cidade.

Lusa/Fim