Macau/99: História oficial chinesa reduz “domínio português” a 150 anos
Arquivo Lusa 1999
+++ Por António Caeiro, da Agência Lusa +++
Pequim, 14 Dez (Lusa) - Os portugueses estabeleceram-se em Macau há cerca de 450 anos através do "suborno" de um funcionário local, mas até meados do século XIX, mantiveram uma atitude "respeitosa e submissa" perante a China e pagavam mesmo uma"renda"para viver no território.
É assim que o governo chinês está a descrever a História da presença portuguesa em Macau, apresentando a transferência de poderes no território, no próximo domingo à noite, como "o fim de 150 anos de domínio colonial".
"Até 1849, o governo chinês exerceu plena soberania sobre os assuntos administrativos, judiciais, militares, financeiros e aduaneiros de Macau", diz um livro distribuído hoje em Pequim pela Comissão Organizadora das Celebrações do "Regresso de Macau à Pátria".
Segundo aquela publicação, "os portugueses abandonaram o seu habitual respeito e submissão ao governo chinês" em 1845, quando Macau foi "ilegalmente" declarado "porto livre" pela rainha de Portugal, D. Maria I.
A partir daquela altura, refere a mesma fonte, os portugueses deixaram de pagar "renda" ao governo chinês, passando eles próprios a cobrar impostos aos comerciantes chineses.
"Aproveitando-se" da Guerra do Ópio (1840-42), um dos episódios mais "humilhantes" da História da China, que culminou com a"perpétua cedência" de Hong Kong à Grã-Bretanha, "os portugueses procuraram alterar o estatuto de Macau e transformar o território numa colónia".
Em 1851, tropas portuguesas "ocuparam" a ilha da Taipa e treze anos depois, fizeram o mesmo em Coloane.
De acordo com uma outra publicação, compilada pelo Departamento de Informação do Conselho de Estado (executivo do governo chinês), "o governo Qing cedeu às ameaças militares dos portugueses", acabando por "abdicar do exercício da soberania sobre Macau", em 1887.
As referidas publicações salientam, por outro lado, que "Macau faz parte da China desde tempos imemoriais" e "antepassados dos chineses já ali habitavam na Idade da Pedra".
Antes da chegada dos portugueses, no século XVI, Macau - ou"Haojing", como o território se chamava - já era "um porto aberto ao comércio externo", nomeadamente a navios do sueste asiático, que "largavam do porto logo depois de fazerem as suas transacções".
"Contudo, os portugueses violaram aquela convenção" e em 1553, através do "suborno" do vice-comandante da guarda costeira, "foram autorizados a viver temporariamente no local".
O "suborno", no valor de quinhentos taéis de prata (cerca de 19 quilos), transformou-se mais tarde em "renda anual", mas o"direito de residência" obtido por essa via pelos portugueses"nunca foi formalmente aprovado pelo poder central chinês".
Esta versão da História difere da tradicional descrição de Macau como "a primeira parcela do território chinês ocupada por estrangeiros" e contradiz também a habitual retórica oficial.
"Pela primeira vez em meio milénio, nenhuma parte da Ásia estará sob domínio europeu", disse a semana passada a agência noticiosa oficial acerca da transferência de poderes em Macau.
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