Macau/99: Faltam leitores e publicidade para manter jornais em português
Arquivo Lusa 1999
+ + + Por Casimiro Simões, da Agência Lusa + + +
Macau, 10 Dez (Lusa) -- O reduzido número de leitores lusófonos e a falta de publicidade ameaçam a sobrevivência dos jornais de língua portuguesa em Macau, após 19 de Dezembro.
O serviço público de rádio e televisão em Português da TDM está garantido pelo menos até 2004, enquanto a Agência Lusa mantém a actual delegação com um quadro de pessoal mais reduzido.
Numa população inferior a 500 mil habitantes, apenas 10 mil falam a língua de Camões em vésperas do regresso de Macau à administração chinesa, e isto segundo as estimativas mais optimistas.
O número de residentes nascidos em Portugal que permanecem no território rondará as mil almas.
Subsistem quatro jornais dedicados aos luso-falantes: dois semanários --" O Clarim", propriedade da Diocese de Macau, e o "Ponto Final", nas mãos de uma sociedade de advogados -- e outros tantos diários - o "Jornal Tribuna de Macau" (JTM), ligado ao grupo Lusomundo, e o "Macau Hoje", editado por uma empresa liderada por um jornalista.
No território, publicam-se ainda oito diários, três semanários e três mensários em língua chinesa.
Afecto às posições de Pequim, o "Ou Mun Iat Pou" (ou "Diário de Macau"), com uma tiragem de 63 mil exemplares, é o mais lido, sendo ainda distribuído noutras cidades do Delta do Rio das Pérolas.
Os jornais lusos, na sua ínfima expressão, reclamam para si tiragens entre as mil e as 1.300 cópias, números considerados muito modestos no universo da imprensa regional em Portugal.
O padre Albino Bento Pais, director de "O Clarim", está confiante quanto ao futuro do mais antigo jornal local de língua portuguesa, fundado em 1948 por um grupo de jovens católicos.
"Há uma certa tranquilidade, mas o facto de a comunidade portuguesa ficar mais reduzida terá as suas repercussões", vaticina, em declarações à Agência Lusa, o sacerdote oriundo da Beira Baixa, que se estreou no campo editorial em Lisboa, como missionário paulista.
Esclarece que o bispo D. Domingos Lam,- um chinês natural de Hong Kong - quer assegurar a continuidade do semanário como voz dos católicos Macau, ainda que rareiem leitores e receitas da publicidade.
Albino Pais lembra que também o subsídio concedido pelo governo local aos mais antigos jornais de língua portuguesa - um máximo de 12.500 patacas por mês - está prestes a acabar.
Em Macau, os incentivos oficiais à imprensa nunca abrangeram um sistema de porte-pago como os que têm vigorado em Portugal para a imprensa local e regional.
Albino Pais e alguns dos seus "concorrentes" vêem a recente "liberalização" da publicidade institucional no território como uma "forte machadada" nos orçamentos das empresas jornalísticas.
Os novos Código de Processo Civil e Código Comercial de Macau estabelecem que a escolha de um jornal (chinês ou português) para divulgar anúncios judiciais, balancetes anuais e outros textos de publicação obrigatória passa a ser uma opção das empresas.
Até há pouco tempo, os particulares, ainda que não soubessem uma letra de Português, como acontece com a esmagadora maioria dos residentes em Macau, tinham de divulgar aqueles documentos, em simultâneo, numa publicação chinesa e numa portuguesa.
Agora, os códigos revistos já lhes permitem optar livremente, em função dos seus interesses e da expressão linguística dos possíveis destinatários dos anúncios.
"O Clarim sempre teve menos anúncios do que os outros. Em geral, a publicidade institucional, essa, quase desapareceu. Ainda se vê qualquer coisa dos tribunais, mas pouco", diz Albino Pais.
Ricardo Pinto, antigo jornalista da RTP e da TDM, é o director do "Ponto Final", que se publica no território há cerca de oito anos.
"Ainda não sei dizer se há condições ou não para continuar. Decidiremos até ao fim do ano", disse à Lusa, salientando que o jornal "nunca recebeu subsídios do governo" e que o chefe do executivo da futura Região Administrativa Especial de Macau (RAEM), Edmund Ho, "prometeu rever" os critérios de apoio à imprensa.
Face ao "progressivo declínio do número de leitores" e da publicidade - como admite Ricardo Pinto - os jornais "laicos" fazem novas apostas para sobreviver. O "Ponto Final" lançou em Junho um suplemento em Inglês.
"Se desaparecerem os jornais existentes, seguramente que nascerá um novo projecto mais adequado à nova realidade", vaticina Ricardo Pinto.
Entretanto, termina a 31 de Dezembro o contrato-programa entre a Lusa e o governo de Macau para fornecer serviço noticioso gratuito aos jornais, que fazem uma substancial utilização das peças da agência.
Ao longo dos anos, a Lusa pôde fornecer aos órgãos de comunicação social da Ásia-Pacífico um serviço gratuito de fotografia e texto, em Português, Chinês e Inglês.
Os directores dos jornais de língua portuguesa oscilam entre a resignação, uma certa esperança em "melhores dias" e um sentimento de revolta perante o risco de fechar as portas.
"É uma vergonha se cá não fica nenhum jornal português", afirmou à Lusa o director do JTM.
Em 1998, José Rocha Dinis (então director do semanário "Tribuna de Macau") concretizou com o seu homólogo do vespertino "Jornal de Macau", João Fernandes, a fusão dos dois jornais, tendo criado o actual diário JTM.
"Um jornal português em Macau é também um factor de cultura. Há milhares de chineses que foram tocados pela língua portuguesa", alerta Rocha Dinis.
E dá um exemplo para elucidar a sua tese: "Então o cônsul de Portugal vai convocar a comunidade lusófona num jornal chinês? É ridículo".
O director do JTM, que é também docente da Universidade de Macau, vai regressar a Portugal após 19 de Dezembro, mas afirma que a edição do matutino será assegurada por "uma equipa mínima altamente motivada".
"O JTM é um jornal muito pequeno, onde os 'features' do Diário de Notícias continuam a ser essenciais", reconhece Rocha Dinis.
A fusão dos dois títulos e a nomeação do jornalista João Drago para o cargo de director-adjunto, em fins de Novembro, "já foram a pensar" no quadro pouco animador que surge no horizonte.
João Severino dirige o "Macau Hoje", que se apresenta como "A voz dos macaenses".
"Vai acabar a publicidade necessária para manter um jornal, embora o Macau Hoje seja o único com publicidade a sério", disse à Lusa o jornalista.
Na sua opinião, o regresso a Portugal de "milhares de pessoas" nos últimos dois anos "impede qualquer jornal de língua portuguesa de ter futuro. A não ser que um investidor queira perder 300 a 500 mil patacas por mês".
João Severino lamenta as implicações que a revisão do Código Comercial e do Código de Processo Civil tem na imprensa dirigida aos luso-falantes, o que "não aconteceu em Hong Kong em relação aos jornais ingleses", após a transição para a China.
Na sede do "Macau Hoje",- um quinto andar próximo do palácio do ainda governador Rocha Vieira , Severino tem hasteadas, permanentemente, as bandeiras de Portugal e da República Popular da China.
Ele acredita que a sobrevivência do diário pode estar na conquista de anunciantes junto da comunidade chinesa. Daí que, no início de 2000, o matutino passe a incluir um suplemento de quatro páginas em Chinês.
A Teledifusão de Macau (TDM), para já, vai cumprir até 2004 o contrato de concessão dos serviços públicos de televisão e rádio (dois canais de cada, em Chinês e Português).
"Temos fundadas esperanças de que se mantenham os quatro canais", diz o administrador da empresa Paulo Ramalheira.
A TDM emprega mais de 300 trabalhadores e "é deficitária", admite Ramalheira, ex-jornalista da Lusa. O futuro será traçado "de acordo com aquilo que a evolução exija".
A Agência Lusa vai manter em Macau uma "estrutura mais ligeira" ao nível da redacção em Português, embora continuando a produzir informação em Inglês e Chinês.
Instalada num edifício da empresa, a delegação da Lusa na futura RAEM vai continuar a coordenar os serviços da agência na Ásia: Pequim, Banguecoque, Índia e Díli.
"Estamos num processo de obtenção de receitas locais", afirma Gonçalo César de Sá, chefe da delegação regional.
Salvaguardar a presença em Macau de meios de comunicação de expressão portuguesa "para lá de 1999" tem sido uma das prioridades do executivo de Rocha Vieira.
Afonso Camões, director do Gabinete de Comunicação Social do governo, considera que estão reunidas condições para manter em actividade um jornal, uma rádio e um canal de televisão.
A divulgação da realidade de Macau tem sido tarefa das revista "Macau" e "Revista de Cultura" (ambas com edições em Português, Chinês e Inglês), ligadas à administração e que deverão perdurar após 19 de Dezembro.
Lusa/Fim