Macau/99: Entre a identidade própria e o patriotismo chinês
Arquivo Lusa 1999
+ + + Por Gonçalo César de Sá, da Agência Lusa + + +
Macau, 05 Dez (Lusa) - Macau vai entrar no ano 2000 com o desejo claro de manter a diferença em relação à grande China e com uma nova elite política e social que, apesar de ter crescido com Portugal, será confrontada com a necessidade pragmática de se ligar a Pequim.
Com a partida dos quadros superiores da administração portuguesa, substituídos por uma nova geração de naturais de Macau, muitos deles formados ao longo de anos pelo governo do território, assiste-se ao aparecimento de uma nova elite local com ambições políticas e sociais.
"É interessante notar-se que o novo governo de Macau é jovem e que, se peca pela falta de experiência, tem a seu favor o facto de ter que provar que Macau pode funcionar administrado pela própria população", acredita António Santos, funcionário público português há dez anos e que decidiu ficar nos quadros da administração de Macau.
O chefe do executivo da Região Administrativa Especial de Macau (RAEM), Edmund Ho Hau Wah, acredita que nos próximos anos "as mudanças serão certamente mínimas", mas não deixa de alertar que a pressão social e económica levará a mudanças no território.
"O que nós devemos fazer é manter o património de centenas de anos de relações entre as culturas portuguesa e oriental, porque é um legado único na zona", defende no entanto Edmundo Ho.
Se ao nível económico os próximos anos não trarão grandes alterações, uma vez que a economia de mercado em que Macau funciona se manterá, já o mesmo não se pode dizer em relação à cultura e ao estilo de vida.
"Se não ficar a cultura macaense, se não ficarem os portugueses,Macau vai tornar-se igualzinha a milhares ou centenas de milhares de outras cidades espalhadas pela China", diz o escritor Henrique Senna Fernandes, descendente de uma das famílias mais antigas de Macau.
Ao esforço feito ao longo dos anos para dotar Macau da sua própria identidade e singularidade, reconhecida pelos futuros dirigentes de Macau, contrapõe-se nesta fase final da presença portuguesa e no início do próximo século o desejo dos residentes de Macau de mostrarem que, "embora diferentes, são chineses".
"O patriotismo chinês ultrapassa tudo, e nós, apesar de nascidos em Macau, iremos certamente ter uma maior aproximação à China, aos seus valores e às suas tradições, que são também nossas. Dizemos sempre que Portugal e a China viveram juntos em Macau, mas o que aconteceu é que estiveram de costas viradas a maior parte do tempo",admite António Chan, funcionário público.
A posição assumida publicamente por Gabriela César, presidente da Fundação para o Desenvolvimento e Cooperação de Macau, parece ser a mais "inteligente e pragmática" para quem, como ela, nasceu em Macau fruto de uma ligação luso-chinesa.
"Temos de saber preservar a nossa identidade de macaenses no futuro sem perder os laços com Portugal e sem renegar a costela chinesa", defende Gabriela César, um dos líderes incontestados da comunidade macaense.
Para o vulgar cidadão, como Tony Fan, que trabalha no canídromo de Macau, tal como para a maioria da população do território de cerca de 430 mil habitantes, pouco mudará.
"Pouco vai mudar para mim. Eu não vivia com os portugueses e nada tenho a ganhar ou perder. Sei que nos últimos anos criaram condições boas para Macau e deixaram a possibilidade de se viver bem. Cabe agora ao governador Edmund Ho aproveitar o que os portugueses deixaram de bom e que pode servir os interesses de Macau no futuro", diz.
Jorge Rangel, português nascido em Macau, responsável do Governo pela Administração e pela transferência de poderes para a China,sintetiza o que Macau pode ser depois de 1999 ao afirmar que "Portugal não deixa só as pedras dos monumentos. Deixa também uma população habituada a viver com os valores dos direitos, liberdades e garantias".
A administração portuguesa de Macau deixa um território com infraestruturas vitais para o futuro, uma política de defesa do património e o primado da lei instituído.
Apesar de Macau querer manter a diferença com a grande China através de uma identidade e de um estilo de vida próprios, a influência da China será cada vez maior, o que, apoiado ao patriotismo chinês, fará com que surjam mudanças umas atrás das outras.
"Para já vou-me embora. Daqui a uns anos venho cá ver como está Macau e se ainda me diz alguma coisa", desabafou, momentos antes de partir para Lisboa, um tradutor oficial que durante anos serviu os governadores de Macau.
Para marcar a diferença futura e fazer um apelo ao nacionalismo e ao patriotismo chineses não pode passar despercebido o modo como as autoridades chinesas locais têm vindo a fazer apelos para que a população receba ao princípio da manhã de 20 de Dezembro de 1999 as tropas do Exército Popular de Libertação da República Popular da China com bandeiras vermelhas da China e verdes da RAEM.
Para que ninguém esqueça que Macau é China.
Lusa/Fim