Macau/99: Concessão dos casinos será aberta “eventualmente” – Edmund Ho
Arquivo Lusa 1999
+++ Por Gonçalo César de Sá e João Miguel Roque, da agência Lusa +++
Macau, 01 Dez (Lusa) - O chefe do executivo da futura Região Administrativa Especial de Macau (RAEM) admitiu hoje que a concessão do exclusivo do jogo, cujo actual contrato termina em 2001, venha a ser eventualmente aberta mas reconheceu que a situação presente terá de se manter ainda por algum tempo.
Edmund Ho Hau Wah disse, em entrevista à agência Lusa, ser necessária uma maior supervisão da indústria dos jogos de fortuna e azar "de modo a minimizar e conter alguns dos problemas que gera (...), possibilitando a criação de mais receitas, o que fará melhorar a economia de Macau, a curto e médio prazo, permitindo que o governo da RAEM se concentre num plano de longo prazo destinado a diversificar as suas indústrias".
Edmund Ho Hau Wah, 44 anos, ex-banqueiro e vice-presidente da Assembleia Legislativa, vai tornar-se chefe do executivo da Região Administrativa Especial de Macau a 20 de Dezembro, depois de Portugal transferir a administração do território para a China.
"A questão do jogo em Macau deve ser olhada com cautela. Temos de ser cautelosos porque (o jogo) assegura uma receita estável ao governo. Trata-se de um assunto que não podemos ignorar e que não podemos olhar de modo irresponsável. Não podemos olhar o jogo com uma visão minimalista e penalizar ou matar a indústria (do jogo) porque isso não resolvia nenhum problema", reconheceu Edmundo Ho.
O chefe do executivo defende por isso que se torna necessário considerar o jogo em Macau como uma parte dos seus atractivos, numa promoção mais alargada do território, nomeadamente "da sua atmosfera cultural e do seu tremendo património, que permite atrair visitantes de todo o mundo".
A Sociedade de Turismo e Diversões de Macau (STDM) possui a concessão dos jogos de fortuna e azar em Macau (10 casinos, um clube privado com mesas de jogo, corridas de cavalo e galgos e ainda lotarias), que termina no final de 2001.
A STDM emprega 10 mil pessoas, o que representa cinco por cento do mercado de trabalho do território.
"Não devemos tentar esconder do mundo que temos casinos, temos é de integrar essa promoção numa acção global de divulgação de Macau com as suas características únicas que mostram uma relação de séculos da cultura oriental e da portuguesa que tornou o território único nesta região da Ásia", assinalou.
Edmundo Ho garante que Macau, no futuro, vai manter a sua identidade e os seus valores, mas a região deve estar preparada para "beneficiar do desenvolvimento e abertura da China e das áreas limítrofes" do território.
"Creio que as mudanças em Macau nos próximos anos vão ser mínimas mas seria irrealista pensar que Macau daqui a 20 anos vai ser igual ao que é hoje, porque não só os valores humanos mudam mas também porque as condições se alteram, a pressão económica e de visitantes será outra e as necessidades futuras também. Mas, estou certo, que o território manterá uma identidade única mesmo integrado na China", considerou Edmundo Ho.
O chefe do executivo da futura Região Administrativa Especial assegurou também que a China vai encorajar as empresas chinesas a investirem em Macau ao mesmo tempo que estabelecerá políticas para tornar o território mais competitivo.
"Não será uma decisão politica mas medidas estritamente empresariais desde que exista um ambiente favorável para os investidores e ele tem de ser criado por nós em Macau", disse Edmund Ho Hau-Wah.
O chefe do executivo da RAEM adiantou que nesse contexto Macau, pela sua vocação histórica e pela relação com Portugal, pode servir de ponte entre os países da União Europeia e a República Popular da China.
"O papel de Macau para com os homens de negócios dos países europeus deve ser essencialmente de facilitador da entrada num mercado maior como a China", disse Edmund Ho, recordando que Macau manterá o seu sistema capitalista, é um porto da China e possuiu atractivos fiscais, financeiros, de serviços e económicos.
O futuro "governador" de Macau reconhece, no entanto, que o território e os seus homens de negócios não têm capacidade para apoiar os empresários europeus em toda a China, "pelo que se devem concentrar os esforços no delta do rio das Pérolas (Macau-Hong Kong e Cantão) e em uma ou duas cidades chinesas como Xangai".
"Em Macau, os empresários podem encontrar infraestruturas competitivas para actuarem na China e condições sociais ao nível de habitação, escritórios, saúde e educação de boa qualidade", acrescentou Edmund Ho, para revelar que no próximo ano o território poderá ter "pelo menos uma boa escola internacional".
O chefe do executivo da RAEM, que visitará Portugal durante o primeiro semestre de 2000, revelou ainda que na primeira semana de Dezembro será conhecido o responsável da Missão de Macau em Lisboa, que a partir de 20 de Dezembro ficará igualmente com a responsabilidade da Missão de Macau em Bruxelas.
"Ainda durante o próximo ano Macau abrirá também em Pequim uma representação que terá, no entanto, funções e atribuições diferentes e mais alargadas do que as de Lisboa e Bruxelas", referiu igualmente.
Edmundo Ho Hau Wah revelou ainda na entrevista à Agência Lusa que depois de algumas adaptações vai instalar o seu gabinete no Palácio da Praia Grande (sede do governo português de Macau) e "possivelmente" manter o Palácio de Santa Sancha como residência oficial para reuniões e recepções, apesar de não ter planos para ali viver.
"Não tenho qualquer problema em instalar o meu governo (no Palácio da Praia Grande) onde esteve instalada a administração portuguesa e as conotações não têm qualquer significado para mim. Tenho de ver, sim, são as questões pelo aspecto prático e pragmático e com a saída da Assembleia Legislativa do Palácio ficam criadas melhores condições de trabalho para o governo", finalizou.
Lusa/Fim