Macau/99: A questão de Taiwan – “Reunificação é certa”, mas não será amanhã
Arquivo Lusa 1999
+ + + Por António Caeiro, da Agência Lusa + + +
Pequim, 09 Dez (Lusa) - Mao Zedong fez da China uma grande potência, Deng Xiaoping abriu-a ao desenvolvimento económico e Jiang Zemin, o actual presidente, gostaria de passar à História como o arquitecto da "Reunificação da Pátria".
Mas ao contrário do que aconteceu em Hong Kong em 1997, e acontecerá também em Macau no próximo dia 20, o regresso de Taiwan à soberania de Pequim continua sem data marcada e poucos pensam que esse processo seja rápido.
A ilha onde se refugiou o governo da antiga República da China depois de o Partido Comunista Chinês ter tomado o poder no continente, em 1949, é vista pelas autoridades de Pequim como uma "província" renegada da República Popular da China.
Taiwan mantém, contudo, relações diplomáticas com quase trinta países, entre os quais o Vaticano e S. Tomé e Príncipe, e, apesar da oposição de Pequim, continua a tentar entrar na ONU e em outras organizações internacionais formadas por Estados soberanos.
Situada a menos de 250 quilómetros do continente, com 21 milhões de habitantes e cerca de um terço da área de Portugal, Taiwan tem, também, uma das mais dinâmicas economias do planeta.
"Taiwan faz parte da China e um dia voltará também a unir-se à China, mas não será nos próximos dois ou três anos", disse o chefe do futuro governo de Macau, Edmund Ho, num encontro com correspondentes europeus acreditados em Pequim.
A China defende a "reunificação pacífica" com Taiwan segundo o mesmo princípio adoptado para as Regiões Administrativas Especiais de Hong Kong e Macau - "um país, dois sistemas" -, mas ameaça "usar a força" se a ilha proclamar a independência.
Lançada no início da década de oitenta, aquela fórmula foi criada, aliás, para "resolver a questão de Taiwan" e neste caso o "alto grau de autonomia" prometido por Pequim é ainda mais lato.
Sob a bandeira vermelha da República Popular da China, além do sistema capitalista e do "estilo de vida" que lhe está associado, Taiwan poderá manter as suas forças armadas, por sinal uma das mais sofisticadas da Ásia Oriental.
O governo de Taiwan tem rejeitado a ideia de "um país, dois sistemas", procurando assumir-se como uma "entidade política soberana" e não uma simples administração provincial.
Economicamente, porém, Taiwan está cada vez mais ligada ao continente chinês, estimando-se em mais de trinta mil o número de empresas da ilha que lá se estabeleceram.
Muitos sapatos, brinquedos, bicicletas e outros produtos outrora "made in Taiwan" são hoje fabricados na República Popular da China, nomeadamente em Xangai e nas províncias de Fujian e Guangdong, onde a mão-de-obra é abundante e muito mais barata.
Parece um bom negócio, com óbvias vantagens mútuas, mas para o governo de Pequim, "o mais importante" é as autoridades de Taiwan renunciarem à ideia de "duas Chinas" e aceitarem iniciar "conversações políticas" para "reunificar a Pátria".
O governo de Taiwan, no entanto, pretende circunscrever o diálogo com Pequim às "questões práticas e civis", argumentando que "a reunificação será sempre um longo processo".
"Temos de fazer o máximo para mostrar que a política de um país, dois sistemas funciona", disse também Edmund Ho.
Mas além de tempo para avaliar o sucesso, ou fracasso, daquela inédita fórmula, os sucessores de Mao Zedong e de Chiang Kai-shek têm de restaurar o que foi abalado por mais de vinte anos de guerra civil - a confiança.
Formalmente, a longa guerra civil chinesa ainda não acabou e as forças armadas da República Popular da China continuam a chamar-se Exército Popular de Libertação.
Lusa/Fim