ENTREVISTA: Macau/20 anos: Vontade de apagar história foi travada por Pequim — conselheira
Macau, China, 13 dez 2019 (Lusa) -- A conselheira das comunidades portuguesas Rita Santos afirmou ter sido Pequim que travou "a precipitação" das autoridades locais em "apagar toda a história de Macau" até à transição, em 20 de dezembro de 1999.
"Houve uma precipitação de apagar toda a história de Macau", disse, em entrevista à Lusa, a presidente do Conselho Regional do Conselho das Comunidades Portuguesas da Ásia e Oceânia.
A comendadora, de 61 anos, afirmou que o período logo após 20 de dezembro de 1999, dia da passagem da administração de Portugal para a China, foi bastante difícil tanto para os portugueses como para os macaenses.
"Macau foi administrado 400 e tal anos [por Portugal] e após o estabelecimento da Região Administrativa Especial de Macau (RAEM) eles quiseram chamar a atenção e impor que a língua chinesa é que prevalecia" e que a partir daquele momento eram governados pelas "gentes de Macau".
"Num instante alteraram todos os nomes das ruas, metendo chinês em primeiro e português em segundo lugar" nas placas de identificação, "que faziam parte da história de Macau", lembrou.
Rita Santos recordou ainda que muitos dos portugueses e macaenses da função pública não sabiam ler chinês.
Na qualidade de presidente da direção da Associação dos Trabalhadores da Função Pública de Macau, uma das maiores e mais representativas associações de matriz portuguesa, acompanhada do ex-vice presidente da direção, José Pereira Coutinho (atualmente o único deputado português na Assembleia Legislativa de Macau), Rita Santos lembrou que foram chamados várias vezes para participar nas reuniões de trabalho entre as delegações portuguesas e chinesas no período de transição desde os anos 90.
Nestas reuniões ficou estabelecido que todos os funcionários públicos depois do estabelecimento da RAEM "podiam continuar a ter as mesmas regalias e os vencimentos não inferiores aos que já detinham" e que os costumes e usos dos lusodescendentes seriam protegidos nos termos da lei.
Porém, logo depois da passagem, segundo a comendadora, título que lhe foi atribuído por Portugal, "alguns dos serviços públicos queriam mudar imediatamente muitas coisas, prevalecer a língua chinesa".
"Resolvemos ficar porque aqui é a nossa terra e queremos continuar a lutar para manter a nossa cultura", afirmou, acrescentando que essa foi também a decisão de mais de mil funcionários públicos portugueses que optaram por integrar os quadros em Macau.
Porém, esta precipitação, "não de Pequim", mas local, terminou, em outubro de 2002, quando Rita Santos foi chamada pelo primeiro chefe do Executivo Edmund Ho [1999-2009]. Ho disse que "tinha o apoio do Governo central para constituir Macau como plataforma de ligação entre a China e os países de língua portuguesa", contou.
"O Governo Central dá muita importância à continuidade da cultura portuguesa e dá muita importância à nossa continuidade como lusodescendentes para preservar a nossa cultura e na nossa língua, que aliás está consagrado na Lei Básica" de Macau, considerou.
Houve uma mentalização, de Edmund Ho e do Governo Central, de que Macau devia manter "a especificidade de ser o vínculo, a ligação entre a China e os países de língua portuguesa", sublinhou.
Em 2003, Rita Santos foi então eleita secretária-geral adjunta do Secretariado Permanente do Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa [Fórum de Macau], cargo que ocupou até 2015.
Este Fórum tem um secretariado permanente, reúne-se a nível ministerial a cada três anos e integra, além de um secretário-geral e de três secretários-gerais adjuntos, oito delegados dos países de língua portuguesa (Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste).
A criação do Fórum de Macau "foi uma aposta bastante inteligente por parte da República Popular da China e de Edmund Ho, porque Macau não podia depender somente do jogo, isso era uma imagem muito negativa, tinha que ter algo para canalizar a sua imagem internacional", defendeu.
Depois de assumir estas novas funções, em 2003, Rita Santos disse que resolveu "reativar algumas associações de matriz portuguesa e dos países de língua portuguesa que já existiam" e foi contactando com a comunidade para que fossem criadas mais associações.
Na parte económica também incentivou a criação de associações de mercados lusófonos, vinhos, alimentação, frisou.
"O objetivo era mostrar à China que nós somos importantes e podemos contribuir para o desenvolvimento de Macau na especificação e diversificação da economia", sublinhou.
Desde a criação, até aos dias de hoje, os dados do Fórum de Macau apontam que o investimento chinês nos países lusófonos "terá aumentado mais de 100 vezes" desde 2003, ano em que Pequim criou aquele organismo.
Nos últimos anos, Pequim e as autoridades de Macau estão a "dar mais importância à língua portuguesa, o que aliás não se verificava logo após o estabelecimento da RAEM", afirmou.
MIM // PJA
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