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China/70 anos: Efeméride lembra erosão das liberdades a pró-democratas de Hong Kong

*** João Carreira, da agência Lusa ***



Hong Kong, China, 29 set 2019 (Lusa) -- A deputada Cláudia Mo e o ativista Joshua Wong podem ter uma diferença etária de 40 anos, mas fundem-se na mesma visão pró-democrata que não se conforma com a perda de liberdades e da autonomia em Hong Kong.


A dias do aniversário da fundação da República Popular da China, após três meses e meio de protestos que resultaram em mais de 1.500 detenções, ambos testemunham a violência nas ruas e convergem na justificação para o clima singular de crescente tensão social e política: há uma gradual erosão de valores universais democráticos em Hong Kong.


Cláudia Mo, de 62 anos, sustenta que é preciso prudência na conclusão de que as manifestações representam uma rejeição dos valores e da cultura chinesa.


"Há que separar os nossos valores e cultura tradicionais - inclusive a nossa maravilhosa poesia ancestral, a piedade filial e talvez até o confucionismo -, da China de hoje", alerta Cláudia Mo.


"Os jovens de Hong Kong estão a lutar, essencialmente, contra as doutrinas da China comunista, consideradas autoritárias e inumanas", sustenta a ex-jornalista, que fundou o Partido Cívico em 2006 e que foi eleita pela primeira vez para o parlamento de Hong Kong em 2012, para ser reeleita quatro anos depois.


Após uma viagem com escalas em Berlim, onde se encontrou com o ministro dos Negócios Estrangeiros alemão, e em Washington, com direito a uma audiência no Congresso norte-americano, o ativista político Joshua Wong, de 22 anos, prometeu a intensificação dos protestos, começando já por esta terça-feira, quando se assinala precisamente o 70.º aniversário da fundação da República Popular da China.


Há cinco anos, foi um dos protagonistas do movimento "revolução dos guarda-chuvas", que paralisou Hong Kong durante 72 dias consecutivos. Acabou condenado a dois meses de prisão por desobediência civil e foi libertado este ano, quando os atuais protestos ganhavam força e mobilizavam milhões de pessoas.


Num momento em que se cumpre o 5.º aniversário do movimento "Occupy Central" e a 48 horas do Dia da China, o ex-nomeado ao prémio Nobel da Paz em 2018 argumenta que, para além da luta pela autonomia e democracia, a população de Hong Kong "também está a combater os valores antidemocráticos da China Comunista".


Antes de 1997, a autonomia de Hong Kong garantia-lhe o estatuto de centro internacional de negócios, sublinha o cofundador do movimento pró-democriacia Demosisto, ele que foi um dos alvos de uma série de detenções policiais em agosto.


Contudo, após a passagem da administração britânica do território para a China, "Hong Kong tem perdido lentamente a sua autonomia e pluralidade política", frisa, para rematar: "Este verão de descontentamento é uma grande luta contra esse sofrimento".


Cláudia Mo foi jornalista da agência de notícias France-Presse e cobriu em 1989 os acontecimentos na Praça Tiananmen, quando o movimento pró-democracia iniciado por jovens estudantes da Universidade de Pequim foi esmagado na noite de 03 para 04 de junho, após a entrada de tanques do exército para pôr fim a sete semanas de protestos, o que resultou num número indeterminado de mortos.


A deputada faz uma breve contabilidade do que se ganhou e perdeu com a passagem do território, há 22 anos, para a República Popular da China, que comemora esta terça-feira 70 anos: "Hong Kong ganhou pouco, exceto que não vivemos mais sob o domínio estrangeiro".


Se por um lado a História provou até à exaustão os males do colonialismo, sustenta, a verdade é que durante a Hong Kong britânica "conseguiu-se aprender sobre valores universais como direitos humanos e o Estado de Direito", ressalva.


Contudo, avalia a pró-democrata, "Hong Kong caiu numa situação em que mal consegue manter uma fachada de uma sociedade moderna".


E conclui: "Perdemos gradual e continuamente as nossas liberdades".



JMC // FPA


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