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Camões ou “Jiameishi”: viagem pela primeira Enciclopédia de Macau publicada na China

Arquivo Lusa 1999

*** Por António Caeiro, da agência Lusa ***

Pequim, 09 Nov (Lusa) - Wei Qili?! Jiameishi?! - São os nomes chineses de Rocha Vieira e Luís de Camões, respectivamente, e é assim, também, que aparecem na primeira "Enciclopédia de Macau" publicada na República Popular da China.

"Ultimamente, têm saído muitos livros sobre Macau, mas com informações muitas vezes incorrectas", realçou à agência Lusa um dos dois editores-chefes da Enciclopédia, Wu Zhiliang.

O livro, com cerca de 700 páginas e mais de três mil entradas, foi publicado no final de Outubro em Pequim pela "Editora da Enciclopédia da China", estando previsto o lançamento de uma nova  edição em Macau, ainda em Novembro.

Compilada ao longo de três anos e meio por mais de 70 "peritos", a "Enciclopédia de Macau" é, também, "a primeira obra do renego elaborada por académicos locais".

Wu Zhiliang, 35 anos, administrador da Fundação Macau, formado em português pelo Instituto de Línguas Estrangeiras de Pequim, não tem dúvidas: "Esta Enciclopédia vai contribuir para um mais correcto conhecimento de Macau, sobretudo na República Popular da China".

Além do último governador de Macau e do autor de "Os Lusíadas", a Enciclopédia cita dezenas de outras figuras portuguesas ligadas à História do território, desde o poeta Bi Shanye (Camilo Pessanha) ao padre Teixeira (Wen Dequan).

O advogado Hua Nianda (Neto Valente), o escritor Fei Liqi (Henrique Senna Fernandes), o bispo Lin Jiajun (Domingos Lam), vários ex-governadores e os secretários-adjuntos da actual administração fazem parte da lista.

Todos os nomes estão escritos em chinês e em "pinyin", sistema de romanização dos caracteres chineses em vigor na República Popular da China.

Há, também, referências aos monumentos portugueses, nomeadamente às Dasanba Paifang (Ruínas de S. Paulo), à Maratona Internacional de Macau e até ao filme "Macao", com Robert Mitchum.

A maioria, porém, diz respeito a personalidades chinesas.

Só o apelido "He" tem 16 entradas, entre as quais He Houhua (Edmund Ho), o chefe do futuro governo chinês, e o seu pai, He Xian (Ho Yin), falecido em 1983.

Imediatamente antes de He Houhua, vem outro ilustre "He" de Macau: o patrão dos casinos, He Hongshen (Stanley Ho).

Os cerca de 40 "Li" citados na Enciclopédia incluem uma das mais conhecidas figuras da comunidade macaense - Li Zuzhi (Jorge Rangel) - e o primeiro governador nomeado por Portugal após a Revolução do 25 de Abril, Li Andao (Garcia Leandro).

A própria Li Fei, campeã de artes marciais nascida há 25 anos na província de Guangxi, sul da China, e radicada em Macau desde 1992, não foi esquecida.

O historiador britânico Charles Boxer (Bokesai) e o pintor George Chinnery (Qiaozhi Qiannali) também lá estão, assim como Leonel Alves (Ou Anli) e Raimundo do Rosário (Luo Liwen), dois dos raros macaenses que fazem parte da Comissão Preparatória da futura Região Administrativa Especial de Macau.

Quanto à História, a versão da Enciclopédia não coincide inteiramente com o que é ensinado na República Popular da China.

Enquanto os manuais de Pequim acusam os "colonialistas" portugueses de ter "subornado" funcionários locais, a Enciclopédia refere que "mercadores" portugueses foram "autorizados" a construir um abrigo em Macau em 1553, e a partir de então começaram a "ocupar gradualmente" o território.

Sobre a actuação dos Guardas Vermelhos de Mao Zedong na sequência dos tumultos de 3 de Dezembro de 1966, conhecidos por "1.2.3" (dia 3 do mês 12), a Enciclopédia tem apenas três linhas.

"O "1.2.3" é ainda uma questão muito polémica", disse Wu Zhiliang.

Em declarações à agência Lusa, Wu Zhiliang adiantou que a edição de Enciclopédia que vai ser lançada em Macau será "muito mais bonita" da que saiu em Pequim, e terá mil fotografias a cores.

O lançamento deverá ocorrer no final da segunda quinzena de Novembro, menos de um mês antes de Macau passar a administração chinesa e de a Historia do território iniciar uma "xinda yiye" (nova página).

Lusa/Fim