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Propaganda chinesa controla informação sobre protestos em Hong Kong

epaselect epa07700888 Anti-extradition bill protesters take part in a march to West Kowloon railway station in Hong Kong, China, 07 July 2019. According to the events organizers, the march aims to spread the spirit of resistance all over Hong Kong Island to Kowloon and even to Mainland China.  EPA/CHAN LONG HEI

A gestora Fang Li não percebe porque é que a Internet tem estado intermitente em Pequim, enquanto o professor de italiano Wang Lin reage incrédulo ao saber que os protestos em Hong Kong juntaram dois milhões de pessoas.

Ambos trabalham em Pequim, viajam frequentemente para fora da China e dominam uma língua estrangeira, mas não sabem - ou não estão interessados em saber - sobre os protestos que abalam Hong Kong há mais de duas semanas.

Uma polémica proposta de lei, que permitiria que a chefe do Executivo e os tribunais de Hong Kong processassem pedidos de extradição de suspeitos de crimes para jurisdições sem acordos prévios, como é o caso da China continental, levou centenas de milhares de pessoas à rua, desde o início do mês.

Um dos protestos, em meados de junho, juntou cerca de dois milhões de pessoas, segundo os organizadores, assumindo-se como o maior desde 1997, aquando da transição da ex-colónia britânica para a administração chinesa.

Confrontado pela agência Lusa com a dimensão daquele protesto, Wang não queria acreditar: "Mas então a população de Hong Kong não são só sete milhões de pessoas?".

Fang viu as imagens e expressou um "hum", assinalando desinteresse.

A censura exercida pelo regime chinês, aliada a uma campanha de desinformação, parece estar a surtir efeito no país, alargando o fosso entre a população da China continental e o resto do mundo no acesso a informação suscetível de embaraçar o Governo central.

Em 10 de junho, um dia após cerca de um milhão de pessoas exigirem nas ruas de Hong Kong que o governo retirasse o projeto de lei, o jornal oficial China Daily noticiou que 800.000 pessoas tinham assinado uma petição em apoio à proposta.

"Apesar do calor escaldante, representantes de várias organizações em Hong Kong estiveram à altura da ocasião no domingo, realizando várias atividades públicas em toda a cidade em apoio aos planos do governo para emendar a lei de extradição", descreveu o jornal.

Segundo o China Daily, os manifestantes dirigiram-se mesmo à sede do Governo, a "exigir que a lei fosse aprovada" para "garantir o primado da Lei e a segurança pública", enquanto os painéis de iluminação LED da cidade se "encheram de vídeos e slogans a apoiar a proposta".

Nesse mesmo dia, imagens em todo o mundo revelavam confrontos violentos entre a polícia e os manifestantes, com as forças de segurança a usarem gás lacrimogéneo, gás pimenta e balas de borracha para dispersar a multidão.

E quando, passados poucos dias, Hong Kong assistiu aos maiores protestos da sua história, o China Daily noticiou que os pais da cidade marcharam contra a interferência dos Estados Unidos no território e condenaram as "entidades estrangeiras" que enganam os jovens de Hong Kong.

A China é o país com mais internautas do mundo, cerca de 710 milhões de utilizadores - mais do dobro de há cinco anos - 92,5 por cento dos quais acedem à rede através de smartphones, segundo dados oficiais.

O uso da Internet no país é, no entanto, restringido, com vários portais estrangeiros e alguns serviços de "gigantes" da Internet, como o Facebook, Twitter e Google, banidos da rede chinesa.

A narrativa é sobretudo controlada pela imprensa estatal, que está sob tutela do departamento de propaganda do Partido Comunista Chinês (PCC).

"É notável observar quão eficaz é o PCC", comenta Anne-Marie Brady, especialista em assuntos sobre a China, na Universidade de Canterbury, na Nova Zelândia. "Mesmo na época da Internet global, consegue manter tudo dentro dos limites da censura".

 

João Pimenta