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Países africanos procuram nova relação comercial com a China

epa07686765 Tourists look at huge pieces of graffiti art on a wall of a building in downtown Johannesburg, South Africa, 01 July 2019. The art form has flourished in the inner city as the area has decayed over the past decade. Various artists from both South Africa and the rest of the world have taken their spray cans to the huge walls in South Africa's biggest city.  EPA/KIM LUDBROOK

Mais de cinquenta países africanos exibiram em julho, na China, produtos com valor acrescentado, visando diversificar uma relação comercial em crescente, mas que do lado africano assenta sobretudo em matérias-primas.

Café, chocolate, produtos de beleza, têxteis ou joalharia, incluindo dos países africanos de expressão portuguesa, estiveram expostos no Centro de Convenções Internacional de Hunan, na província de Changsha, na primeira Exposição Económica e Comercial China/África.

Grupos de música e dança, envergando trajes típicos africanos, atraiam a curiosidade dos visitantes chineses.

"Queremos criar mais valias, mais emprego, para os jovens angolanos", apontou à agência Lusa o coordenador executivo da Câmara de Comércio China/Angola, Adulai Baldé.

A cooperação da China com África tem sido dominada pelas relações entre Estados: bancos estatais chineses concedem empréstimos para construção de infraestruturas, a cargo de empresas estatais chinesas, servindo os recursos naturais dos respetivos países como colateral.

As indústrias chinesas abastecem-se assim no continente, obtendo petróleo em Angola, madeira em Moçambique ou cobre na Zâmbia, enquanto inundam com os seus produtos os mercados em Luanda, Maputo ou Lusaca, gerando a revolta nos comerciantes locais.

"O principal motivador da relação tem sido a busca estratégica de recursos por parte do Governo chinês, numa tentativa de garantir matérias-primas para as crescentes necessidades da China", descreveu Ricardo Soares de Oliveira, Professor Associado no Departamento de Política e Relações Internacionais da Universidade de Oxford.

O secretário-geral adjunto do Fórum de Macau, Rodrigo Brum, considerou, porém, que a China tem uma vontade "genuína" de equilibrar o seu comércio com África.

"Essa é que é a questão importante: não pensarmos só na exportação de matérias-primas pelos países africanos, mas sim de produtos transformados; ter a contrapartida de investimentos chineses na produção e a concretização de investimentos produtivos", apontou. "Acima de tudo aumentar a riqueza que fica nos países que exportam", disse ainda.

Organizada em conjunto pelo ministério do Comércio chinês e o governo da província de Hunan, a exposição em Changsha foi lançada no âmbito do Fórum de Cooperação China-África (FOCAC), e visa estabelecer um "novo mecanismo" de cooperação comercial e económica entre a China e os países africanos.

O país asiático tornou-se, em 2009, o maior parceiro comercial de África. Pelas estatísticas chinesas, em 2018, o comércio China-África somou 204 mil milhões de dólares (179 mil milhões de euros), um crescimento homólogo de 20%.

Em setembro passado, na abertura da cimeira da FOCAC, em Pequim, o Presidente chinês, Xi Jinping, comprometeu-se em facilitar as importações oriundas de África, sobretudo de produtos transformados.

A importação por parte da China de componentes com valor agregado e bens agrícolas oriundos de África será também uma tendência natural, à medida que a mão-de-obra chinesa encarece e o país se começa a focar na produção de alta tecnologia.

"A China atingiu o ponto (máximo) da curva da industrialização" e África é o destino "económico natural" para o país iniciar o processo de "deslocação industrial", descreveu à Lusa ministro da Indústria e Comércio de Moçambique, Ragendra Berta de Sousa.

"Nós temos muito espaço e uma baixa densidade populacional", argumentou.

Berta de Sousa admitiu que a relação entre Pequim e o continente africano "tem a sua parte ideológica e geopolítica", mas lembrou que "no mundo moderno o que de facto é determinante são as variantes económicas".

"É algo que interessa economicamente aos dois lados", lembrou.