icon-ham

Cicatrizes da lepra ditam vidas de isolamento na China

As marcas deixadas pela lepra são bem visíveis nas mãos do senhor Abel, um dos 21 antigos leprosos que reside no Rovisco Pais onde funciona o Serviço de Hansenianos em Vigilância, 30 janeiro de 2010. (ACOMPANHA TEXTO) PAULO NOVAIS/LUSA

 

No canto de um cubículo com dez metros quadrados está um corpo em decomposição: repleto de pus, úlceras nos braços e pernas, dedos amputados, rosto desfigurado, sem nariz. Um cheiro pútrido repele os visitantes.

Su Yaodong chegou há duas semanas à aldeia de leprosos do condado de Lianjiang, depois de dez anos a dormir nas ruas de Cantão, uma das mais prósperas cidades da China, a mais de 400 quilómetros dali.

"O seu corpo estava em corrosão", descreve Masq, uma australiana que há vários anos promove ações de caridade na província de Guangdong, sul da China.

"Nós conseguimos convencê-lo a vir para aqui, e estamos felizes, porque ele agora tem um teto sobre a cabeça", diz à agência Lusa.

Situada entre terrenos baldios e uma fábrica de cimento, no litoral de Guangdong, perto da ilha tropical de Hainan, esta aldeia acolhe mais de 60 leprosos - a maioria idosos, expulsos das suas terras natais e ali radicados há várias décadas.

Uma das doenças mais antigas do mundo, a lepra ataca a pele e os nervos e cria lesões irreversíveis, e é transmitida pelo contacto próximo com infetados, particularmente entre quem vive em condições de pobreza extrema.

Segundo a Organização Mundial de Saúde, em todo o mundo haviam 214.783 casos de lepra, em 2016, entre os quais mais de 12 mil considerados graves.

A China não consta da lista de países onde a doença assume uma "dimensão preocupante" e, segundo a Associações de Leprosos da China, quase 480.000 pacientes foram tratados nos últimos cinquenta anos, enquanto cerca de 6.000 continuam infetados.

No entanto, muitos são ostracizados devido às lesões corporais e acabam por permanecer em comunidades isoladas mesmo depois de curados.

Só em Guangdong existem "pelo menos dez" destas aldeias, instaladas "longe das cidades ou algures nas montanhas" e administradas pelas autoridades locais, revela Masq.

As instalações em Lianjiang foram recentemente remodeladas: para além dos espaços comuns - enfermaria, farmácia ou uma sala de convívio - cada unidade individual dispõe de uma cozinha, casa de banho e quarto.

Os residentes recebem, mensalmente, 500 yuan (cerca de 65 euros) do governo local e um médico desloca-se à aldeia quando telefonam.

"De resto, estamos por nossa conta", dizem.

Designado Leprosy Love, o projeto lançado por Masq combate o isolamento destas comunidades: para além de doarem alimentos, roupas e outros bens, os voluntários organizam atividades lúdicas.

"Não se trata apenas de dar um saco de arroz e uns pacotes de leite", explica a australiana, "mas antes proporcionar um momento especial: algo para estimarem e recordarem".

A criação de aldeias isoladas para leprosos remonta aos primeiros anos após a fundação da República Popular da China, em 1949, com o lançamento de programas de saúde pública pelo novo governo comunista.

No final de 2011, estas comunidades, espalhadas pelo país, contavam com uma população total de 20.000 habitantes, segundo dados oficiais.

Este número deverá reduzir-se, ao longo dos próximos anos, à medidas que os residentes vão morrendo e a doença é erradicada, esvaziando estas aldeias.

Lan Ying, que vive em Lianjiang há mais de trinta anos, queixa-se do barulho e poluição gerados pela fábrica de cimento ali aberta recentemente.

"Gostava de sair daqui", diz, "mas já não me resta família".

João Pimenta